Espelhamento: o reflexo de si enquanto conceito

Magritte - Dangerous Liaison

Ao observar o quadro Ligações Perigosas (1926, 72×64 cm, óleo sobre tela) de Magritte, consegui compreender uma idéia filosófica de muito importante: a idéia do conflito.

Podemos pensar a idéia do conflito, por exemplo, em Hobbes, quando  este elabora o conceito de Estado de Natureza (Leviatan, 1, XIII). Este conceito refere-se a um estado anterior ao pacto social, um estado lógico, portanto, a-histórico (embora, segundo o filósofo, possa referir-se a povos pré-históricos como os selvagens da américa) onde os homens vivem uma guerra de todos contra todos. Deste conceito, da sua possibilidade é que Hobbes derivará a necessidade do Estado enquanto tal, fundamentando, assim, a sociedade contratual.

Sem nos adentrarmos mais na filosofia política de Hobbes, nos fixando nesta idéia, de que o homem é o lobo do homem e de que isto que causa a guerra de todos contra todos, vemos que Hobbes parece colocar isto enquanto algo subjetivo, da parte do sujeito. Não é que a guerra de fato existe, mas existe sua possibilidade, não é que os homens sejam DE FATO inimigos dos outros, mas pelo fato de que eu desejo, e sei que todos os outros desejam, então eu IMAGINO que possam desejar o mesmo que eu. Em um estado de natureza, esta POSSIBILIDADE criada pela minha imaginação faz com que eu ataque antes, com que eu jogue a primeira pedra para não ser apedrejado: é um estado de neuróticos e paranóicos.

Brincadeiras à parte, Hobbes, com muita sabedoria, pensou a idéia do espelhamento. Trata-se, antes de tudo, de espelhar o outro, os desejos e sentimentos do outro, ao invés de procurar em mim: é como quando procuramos, p.ex., a beleza de nossas roupas em um espelho, e não nelas mesmas.

Porém, existe uma dimensão do espelhamento que fica esquecida, se o conceito é utilizado desta forma. Porque, um espelho, como em Hamlet, não é imitação de algo. Um espelho, antes de tudo, permite ver este algo outro que eu não vejo e que, também, não é os olhos do outro. Eu procuro meu EU em uma imagem invertida de mim e, ao fazer isto, aprendo algo novo.

O curioso nesta idéia é que analogamente, a cultura desempenha este papel! Vejamos isto mais de perto. Em Platão, no livro X da República (e também no livro III, mas principalmente no décimo), a arte é expulsa da cidade ideal porque ela é imitação do mundo. Mas, na verdade, o mundo já é imitação das idéias, dos conceitos, das formas: do pensamento. Então, se os objetos surgem a partir de uma imitação dos pensamentos, a arte é inútil, uma vez que ela imita a imitação, uma vez que os objetos que ela imita já foram pensados (seja pelos homens, seja pelo demiurgo, o criador).

Porém, a arte não é somente imitação, embora Platão não tivesse condições de pensar isto (uma vez que o abstracionismo surgiu cerca de 24 séculos após sua morte). A arte, assim como Magritte nos mostra também, é espelhamento, é imagem invertida de mim, do mundo, que nos traz algo outro, algo novo.

Esta analogia, de certa forma, foi também utilizada por Theodor Adorno, em seu O Ensaio como Forma, porém, sua analogia não é relacionada com a arte ou com espelhos, mas sim, com as línguas. Adorno dirá, em favor do ensaio, que seu leitor aprende o mundo do modo mais livre, assim como aprendemos uma língua estrangeira. Aprender esta língua, na analogia do filósofo, só é possível no estrangeiro, quando despidos de todas regras inúteis que nos são ensinadas e repetidas incessantemente, ou de dicionários, que fixam significados esquecendo que a comunicação só é possível quando contextualizada. Só aprendemos a outra língua após lidar muitas vezes com a mesma palavra, em contextos diferentes: só então o seu verdadeiro significado é atingido.

Aprender outra língua desta forma é como colocar-se frente a um espelho, é um pôr-se à prova. Em um espelho, por exemplo, nos colocamos à prova da beleza: queremos buscar, encontrar, participar da beleza. Na língua estrangeira sem gramática, dicionário ou regras, também nos pomos a prova. E, tanto na frente do espelho, quanto na língua estrangeira, aprendemos algo novo, algo outro: de um lado, que esta blusa combina ou não com aquela calça. De outro, que lidar com palavras diferentes implica em viver, sentir, pensar um mundo também completamente diferente.

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Filed under Adorno, Anthropology, Arts, Culture, Hobbes, Magritte, Mirror, Philosophy, Plato, Words

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