Sombra e destino

“EU não sou o EU, nem sou o OUTRO
sou qualquer coisa de INTERMÉDIO”
Mário de Sá Carneiro 

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Muitas vezes o reconhecimento de sí é impossível: não adiantam espelhos, fotos, amigos, familiares, textos, livros, viagens… Quando isto acontece, é necessária uma busca.

Busca grotesca, é mais ação. É negação desta negação de si, é fazer tudo às avessas para descobrir o EU, para se encontrar.

Para Cartola e Candeia era mais fácil: a afirmação da vida se dava pela afirmação da natureza

“Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver”
(Preciso me encontrar)

Poderíamos, então, pensar que, de um lado, a afirmação da vida é pela afirmação da natureza, de outro, a negação da vida é também a negação da natureza…

E, claro, se não é somente a natureza biológica que está em jogo, então a natureza, tal como a concebemos, como algo necessário, como algo que não poderia ser diferente (p.ex.; o mapeamento genético abrange TODOS os homens por constituir sua natureza, ou a fome, sede…) então negar a vida, é negar a natureza e, portanto, é atentar contra toda e qualquer natureza.

Isso seria uma filosofia do excesso, uma filosofia negativa e, também, destrutiva. Porém, também é contraditória. Afinal, se a natureza é aquilo que permite a vida e, se a vida é o espaço-tempo que permite o desejo (por isso viver é infinito desejo de si e do outro), então a destruição da natureza também é destruição da vida.

Podemos ir um pouco mais adiante. Pois, se a vida é infinito desejo de si, é egoidade, mas se também é infinito desejo do outro, é intersubjetividade. Ou seja, desejo de si, enquanto desejo material (desejo por comida ou pela satisfação de carências), mas também desejo do outro, enquanto intersubjetividade (desejo do reconhecimento do outro). Dessa forma, se a política é atividade da vida, é intersubjetiva e, portanto, a negação da vida é negação da política e, também, negação da finitude humana.

Por outro lado, é afirmação da morte, porque trata-se de uma busca a um eu infinito que estaria para além de toda vida (uma vez que é negação desta).

Werther executou este movimento e, por isso, morreu de amor. A esta palavra, hoje tão desprovida de significado, o personagem a encheu de força metafísica tal que a vida não mais suportava: o infinito fez com que a finitude humana explodisse.

Goethe sabia disto e, dessa forma, buscou Wilhem: a afirmação da vida sem o instinto destrutivo. Por isto, Wilhem só é possível ATRAVÉS da arte, do teatro, neste caso, e não da vida em si. Wilhem vive os anos de aprendizado, o tempo em sua finitude, como se apresenta para nós, humanos; Werther vive os sofrimentos, o desejo em sua infinitude, tal como se apresenta para um semideus.

Fervorosamente dedicado a uma segunda-feira de semideuses: Andrés, Dominic, Julia, Marcos, Vicente

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3 Comments

Filed under Anguish, Cartola, Desire, Essay, Goethe, Life, Literature, Metaphysics, Music, Nature, Philosophy, Preciso me encontrar, Self, Werther, Wilhelm Meister

3 responses to “Sombra e destino

  1. marcosgoulart

    Eu tenho um tempo no corpo que não entendo, tenho silêncios que dizem “nãos”, “talvezes” e “poréns”… A cada instante uma palpitação, um gole, talvez um não… não sei… talvez? E tempos que levam minha mão nos teus lábios e meus pés até o bar. Em meu pensamento sempre aquele lugar que ninguém quer entrar… No absurdo de ser eu segue um desejo e um reclamar, um não saber e o bar a me pestanejar, a me implicar no futuro que não tem lágrimas, porque um futuro sem lágrimas é expressão de felicidade, é expressão da verdade, é expressão da vida… que nos resta, que nos sobre, que é somente vida.

    Coletivaria Autorativa: Marcos, Júlia, Leonardo, Zé Vicente, Dominique e Andres.

  2. De bar em bar, lagrimas. Essas que são expressão da natureza humana, e por isso, sim são vida. Futuro com vida, lagrimas.

  3. Anonymous

    I
    Nunca tente explicar o que salta
    sem pulsar para um lunático
    O sangue que corre no louco
    abre novas veias a cada palpitar

    Indecifrável a ausência-presente
    pois todo o insano está
    (violentamente em todo lugar)
    não entende o desistir disfarçado
    enraizado, como se para não ferir
    (esmurrando)
    O lunático ao ensimesmar-se
    afasta furiosamente todos
    num ato autruísta
    pois o louco não precisa de platéia

    O insano está sempre acompanhado
    (pelas vozes)
    por isso quando consegue se comunicar
    é inteiro e honesto
    dá flores, lê poesia e desaparece

    II

    Todo o intenso, morre pálido
    como se do seu sangue
    fosse tirado o substrato
    e de sua alma a vida

    mas passado o tempo
    docemente amargurado
    pronto: o encanto

    exorcizado o pranto
    deixa o nascer do sol
    morrer a noite e colorir a tela
    com o gozo que toda a aurora produz no insano

    Logo inventa um outro plano
    o céu terá cor escarlate
    as águas de um carmim leve

    Assim é a vida de um lunático
    a terra é amarelo ouro
    e o fogo: o próprio louco

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