Memória

12AngryManEsse é nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas e nulas, doação ilimitada a completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medroza, paciente, de mais e mais amor (Carlos de Andrade)

Todo aquele que ingressa na busca de si recorre a memórias que lhe darão um fio condutor, uma base sólida para a edificação de seu EU.

Meu caso, por exemplo, relaciona-se com a idéia de desafio. Este estranho desejo, contudo, como todo desejo, é impulsionado ao infinito. Viciei-me no desafio. De tal forma que mais não era necessário vencer, o importante era o desafio.

Quando criança, dentre os maiores desafios estava o que se relacionava com o maior interdito: a mentira. Mentir é algo negado porque ele relaciona-se em oposição a uma virtude: a honestidade. Mentir é errado porque é um vício, assim como o desejo e, assim como todo vício, precisam ser suprimidos (até porque, enquanto negatividade, ou melhor, ausência, os vícios não possuem existência própria e, portanto, não podem protagonizar, caracterizar um EU: não se é mau em si, se é mau porque não se é bom).

Como eu dizia, desafiar era meu vício e, a mentira, então se relacionava com o desafio e, portanto, também não possuia uma existência própria, ao menos naquele momento. Sendo assim, o ápice do desafio era protagonizar uma mentira na qual o espaço fosse o de maior interdição e, para todos aqueles que tiveram infância com a família, sabe que é dos pais que se propõe, muitas vezes, as interdições: construir horários para comer, beber, dormir, brincar, hábitos alimentares… todas estas construções do SELF, desde Aristóteles (até em oposição à Platão) passam pela família, e não pelo Estado.

Alguns, como eu, possuiam mães das quais parecia ser impossível mentir. Ou seja, mentir para minha mãe era o maior desafio, tanto pela dificuldade quanto pelo perigo.

Por exemplo, em um almoço, eu não comi espinafre (pois, como muitas crianças, detestava vegetais, leguminosos e afins), mas disse que comi, pois, na verdade, tinha colocado no prato do cachorro. Em minha consciência ingênua, e infantil, meu plano era perfeito. Óbvio que o final da história não foi vitorioso, pelo contrário, ela terminou com um castigo no ‘cantinho do pensamento’….

Frente a isto, também, relacionava-se um ditado, antigo: ‘Mentiras tem pernas curtas’. Que eu, em meu desafio, prontamente respondia: ‘só precisamos esticá-la um bocado, então’…

Porém, a frase mais forte vi em um filme e carrego até hoje. Infelizmente, nem me recordo do filme, nem da frase exatamente, mas, como a idéia, neste caso serve, vamos à ela. Em determinado momento deste filme, lembro vagamente que um dos personagens pedia conselho à outro, sobre como mentir… ele, diferente de mim, não costumava fazer isto e, ainda quado fazia, era terrível. Seu amigo, então, diz: o segredo da mentira encontra-se na encenação. Você precisa, quando mentir, ACREDITAR na própria mentira. Ela passará a ser uma verdade para você e, por conseguinte, poderá também ser uma verdade para o mundo. Pus isto em prática.

Porém, acreditar na mentira é algo forte, pesado, do qual envolve uma série de rupturas. Você precisa, de fato, percorrer os dados, os fatos, as frases que você PODERIA ter contado ou mesmo feito para, então, relacionar com, o que, DE FATO, aconteceu.

A partir deste momento, passei a mentir sem sorrir, olhando nos olhos e de modo muito convincente.

Porém, não pensem que isto fez de mim um mentiroso inveterado, até porque, meu vício não é a mentira, e sim o desafio. Portanto, mentir desta forma não é utilizado para fins ilicitos, mas sim, para fins lúdicos: fazer um alguém acreditar que algo completamente diferente do que aconteceu tivesse, de fato ocorrido. O que transforma isto em algo lúdico é, como toda ludicidade e com a arte, o distanciamento: ao final do ‘jogo’ se conta como as coisas foram, ou mesmo, se formos rigorosos, a verdade.

Ainda hoje, não consigo mentir para minha mãe, e, também não tenho mais interesse por isso.

Busco desafios maiores, portanto, mais difíceis e, portanto, mais arriscados.

1 Comment

Filed under Anguish, Challenge, Childhood, Literature, Memory, Mother, Poetry, Quotes, Self

One response to “Memória

  1. Anonymous

    Como dizia o Cazuza…”mentiras sinceras me interessam”…

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