Identidade

Chego um dia em minha casa e não sou mais o mesmo, ponto. Meu cheiro mudou, minha cor mudou, meu cabelo mudou e, principalmente, minha mente mudou.

A infinita questão que impulsionou toda filosofia ocidental, o critério de identidade, que vai desde os pré-socráticos até hoje (afinal, que raios de coisa dá, e se é possível que algo dê este critério) estava, de súbito resolvida.

Porém, enquanto questão metafísica, não se resolvia, uma vez que, como bons pensadores, metafísicos unem lógica e ética de tal forma que costumam, no mais das vezes, realizarem cálculos de ação. A questão metafísica não se resolvia porque a proposição de que eu, em T1, era diferente de meu eu, em T2, era somente sentida, era uma crença… ou seja, poderia não ser verdade.

Neste momento, assim como Gregor Samsa (A Metaformose, Kafka), eu tinha certeza do que era, mas, porém, sem saber (!). Então, com minha mente calculante, restam-me duas possibilidades, pelo menos: ou eu passo a acreditar nesta certeza, e a torno verdade ou, o que metafisicamente dá no mesmo, eu a refuto, tornando àquela outra proposição verdadeira. Dá no mesmo metafisicamente porque é um terreno extra mundano, lógico, e não histórico.

Ou acatar, as novas proposições, meu novo eu, implicam em uma mudança, talvez radical, de atitude, inclusive em uma negação do que eu ERA; ou, negar esta certeza, nego também tudo que sinto, em função de um EU que talvez nem mais exista.

De um lado temos um EU que se crê e que TALVEZ exista e, de outro, um EU que se VIVEU e que UM DIA existiu.

De certo modo, podemos arriscar e, nesta aposta, encontrarmos um infinito vazio, talvez um terceiro EU que nem tinha aparecido até então e que pede lugar; ou descobre-se que a certeza do eu anterior era um artifício do gênio enganador e aquele antigo eu sempre existiu ali é seu dever assim permanecer ou, em último caso, o novo eu é manifestação verdadeira, portanto, espelho da nova identidade que surge e, portanto, qualquer ruptura não só pode mas, também, deve ser feita.

Talvez, estas respostas, não tenham cunho metafísico algum, somente histórico e, por isto, façam parte do tempo, da vida e, da solidão.

2 Comments

Filed under Literature, Metaphysics, Poetry, Self

2 responses to “Identidade

  1. giuliettadeglispiriti

    O problema da identidade é realmente muito interessante. Mas, considere o seguinte: no coração da identidade mora a diferença. E, isso de certa forma é aquele poder do negativo que nos faz transcender e nos perceber caminhando por uma estrada cujo percurso só faz crescer atrás de nós, e a diante de nós. Sabe, tudo bem que as questões metafísicas sejam postas num terreno extra-mundano, mas não consigo compreender muito bem até que ponto deixam de ser problemas históricos. Porque acredito que embora sejam questionamentos para aém do físico, quando se trata de (pelo menos no caso do seu texto) falar algo sobre o sujeito então podemos dizer que a consciência tem o seu próprio processo histórico, entende? Um processo de formação que se desenvolve numa determinada margem de tempo. Mas, novamente eu tenho problemas com o tempo. E, o que importa dizer mesmo é que somos constantemente ameaçados pelo instante. O instante é foda. Vai ser nele que a gente irá decidir se quer ter certeza apenas, ou desvelar a verdade.

    Adorei o texto! E, vê só: Kafka rocks!

    Beijo.

  2. ema8

    A=A
    Um dia acordei, tu estavas diferente teu cheiro mudou, teu cabelo mudou, teu sorriso mudou, tua voz mudou. Mas mudanças como essas não fazem no ser um outro, e sim o mesmo mudado. Pode não ser uma questão e pura lógica, mas dar tempo ao tempo. Tempo para sentir-se mudado.
    abs

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