Silêncio

2165444857_26736d0a8d.jpgComo se fala sobre o silêncio? De certo modo, o colóquio sobre o silêncio dos intelectuais possuia algo de contraditório.
Acho que temos dificuldade em pensar o silêncio, as lacunas: elas causam medo? angústia?
“Cansado de falar, olhava o mundo e caminhava. Cultivando meus passos, não estavam alinhados com os teus. Eu, olhando para meus pés, e para teus pés, tentando alinhar… impossível. Preferi alinhar com o próprio chão. Eu, olhando para baixo. De súbito, te busco, pé, perna, coxa, bunda, cintura, tórax, peito, pescoço e… lá estão. Teus olhos. Sei que não preciso falar, dizer, é só olhar. Não tenho medo. Só sei que não sei”
Muitas vezes o silêncio nos leva para algo além de nós mesmos. Por isto ele é insuportável. Outras vezes ele é violento. Por isso também ele é insuportável. Outras vezes, ele é indiferente. Por isso também o silêncio é insuportável.
Por outras vezes, o silêncio acalenta, acolhe: nesse estado ele é ausência absoluta de significado (o que pode também causar medo), assim como também é possibilidade infinita de significado. Assim como uma folha branca, ou no word, tela branca, ou o silêncio que precede cada fala em uma conversa… são espaços em branco, espaços que serão deslocados de não-lugar para lugar.
Podemos supor que tanto Cage em seu 4’33” ou mesmo o Quadro Branco sobre fundo Branco (1918) de Malevich… eles nos colocam em uma ausência de significado tão grande que praticamente qualquer significação está em potência.
“Nunca gostei de sorvete e, as pessoas não entendem isto. Não entendem que chocolate não ocupa uma posição privilegiada na minha cadeia alimentar. Hoje, negar sorvete é mais do que negar doces… negar sorvete é negar você: estou quase aprendendo a gostar de coisas geladas e doces.”
É possível buscar a experiência do nada, do nada absoluto? Muitas vezes ela parece somente trazer confusão e medo.
“As palavras não são mudas… quisera eu deixar de falar, acabar com tudo e virar mudo. Preferia cego, como Édipo, livre da possibilidade de conhecer pela maior de nossas percepções. Assim, só ouviria, tocaria e sentiria com sentidos que nunca experienciei. Conseguiria te reconhecer no escuro? Sempre quando pego tuas mãos ou teu rosto, tento isto. Fecho os olhos e finjo ser cego. Na multidão, conseguiria te achar? Muitas vezes fiz isso. Pelo teu cheiro, conseguiria te reconhecer?
Hoje, no espelho não me reconheci. Se fosse cego, reconheceria? E, quando te ver, me reconhecerei? Nos reconheceremos?
Agora, finjo cegueira, fecho os olhos e, para terminar com a confusão, invoco a melodia, a música, o prazer estético da dança… sozinho, danço, com olhos fechados, cerrados para o mundo, para ti e para mim.
Te amo.”

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Filed under Arts, Literature, nonsense, Philosophy, Poetry, Silence

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