Álibis

conceito-dominacao-negocio-batida-cavaleiro-nocao-gs096015.jpgHegel, nas passagens da Fenomenologia do Espírito (FE), na parte conhecida como A Dialética do Senhor e do Escravo, apresenta a tentativa fracassada de uma consciência (um Self), após sua formação na egoidade, na relação puramente sujeito – objeto, de buscar a liberdade. Essa liberdade, como bem nos frisa o filósofo alemão, não pode existir individualmente (e nisso concorda com Aristóteles, na Política: um homem que não vive em sociedade é um imbecil ou um deus): a vida humana e, por conseguinte, todo conceito, só existe intersubjetivamente.

Na FE, após a formação da consciência individual, ela depara-se, pela primeira vez, com outra consciência… Esse encontro, é puro espelhamento e, já que antes ambas somente se relacionavam com objetos, agora irão tratar-se, ambas enquanto objetos, e esse erro que atestará o fracasso das consciências, enquanto meramente consciências intersubjetivas, realizarem a liberdade.

O  ponto importante aqui, porém, é outro. Diferentemente de querer atestar ou falsear a tese de Hegel, vamos pensar juntos quando ele explica como se dá o PRIMEIRO momento de uma relação de dominação (ou seja, o sucesso de uma consciência, mediante o fracasso da outra, em consumí-la enquanto objeto):

“O senhor se relaciona mediatamente com o escravo por meio do ser independente, pois justamente ali o escravo está retido; esta é sua cadeia, da qual não podia abstrair-se na luta, e por isso se mostrou dependente, por ter sua independência na coisidade. O senhor, porém, é a potência sobre esse ser, pois mostrou na luta que tal ser só vale para ele como um negativo. O senhor é a potência que está por cima desse ser; ora, esse ser é a potência que está sobre o Outro; logo, o senhor tem esse Outro por baixo de si: este é o silogismo [da dominação].”

Ou seja, o senhor se relaciona com o escravo porque aquele, para este, apresenta-se enquanto livre, enquanto ser independente. Mas que independência é esta? Independência da materialidade do mundo; ou seja, a figura do senhor, do dominador, é caracterizada por possuir o que chamamos de valor simbólico do mundo: deste modo, enquanto determinante destes valores, ele também determina os desejos. (Por exemplo: sabemos que os celulares não eram uma necessidade até o momento de sua existência, ou seja,  determinação de um desejo, de certo modo, externo, pois um alguém que criou celulares, os criou porque ELE tinha uma necessidade. Hoje, ele é artefato fundamental para a vida, para NÓS, e, portanto, pensar em uma vida sem celular parece impossível: um valor simbólico foi criado e, também, naturalizado)

Pois bem, então, aquele que determina desejos (e só o faz porque possui força simbólica), o faz porque os objetos não são a manifestação de sua independência, como o são para os escravos. Por isto estes tem ‘sua independência NA coisidade’, ou seja, os objetos do mundo são um positivo para o escravo, neles ele se afirma para garantir sua liberdade. Os senhores não, eles se afirmam NEGATIVAMENTE nos objetos e POSITIVAMENTE sobre o escravo… ele é um objeto, mas qualificado, para o senhor.

De certo modo, podemos pensar assim: objetos não desejam nada (comida, celulares, roupas não desejam), mas seres humanos sim. Então, (como bem lembra o filósofo Kojéve), o senhor só é senhor porque ele deseja o desejo do outro e, mais ainda, o determina (domina): ele é senhor do desejo do escravo.

Por isso, agora, podemos falar em álibis.

A existência de um álibi é a existência de outro que atesta a inocência de um. Ou seja, ele é um terceiro termo que garante a inocência de outro. Porém, álibis também podem ser tomados em outro sentido…

Muitas vezes, podemos pensar a idéia de um álibi enquanto um algo que atesta uma premissa. Ou seja, ele é a garantia de que a premissa será justificada. Porém, não em qualquer premissa, mas somente em premissas das quais possuem, no mínimo para a consciência que executou a ação, um quê de erro…

P.ex: sou um bêbado por causa da cerveja. Nesse caso, vemos alguém tomando enquanto álibi a cerveja. Ou seja, o sujeito, nesse caso, toma a cerveja enquanto motor de sua ação. Porém, a cerveja é um objeto e, nesse sentido, esse sujeito é um escravo.

Se, de algum modo, esse raciocínio possui alguma coisa de correta, podemos pensar que, então, quanto mais imateriais (e mais simbólicos, neste caso), forem os álibis, mais um sujeito terá a garantia de sua dominação, e, por conseguinte, de sua liberdade.

P.ex: eu quero ser uma pessoa melhor para você. Esta premissa, posta desse modo, se relaciona ESSENCIALMENTE com formas simbólicas: o sujeito que enuncia isto SABE que não existe esta pessoa melhor, e talvez nunca exista. Existe, somente, o desejo de um e um desejo sobre este desejo, no caso, o desejo da melhoria deste EU para este VOCÊ que deseja este EU idealizado. Desta forma, vemos uma relação de senhor, não necessariamente sobre o você, mas sobre o mundo.

Porém, o interessante em ambos os casos é que a determinação da ação encontra-se somente em um terceiro termo, e por isso, em todos os casos não existe liberdade.

Hegel sabia disso e, por isso, nunca encontraremos na Dialética do Senhor e do Escravo a liberdade, somente uma relação de dominação…

Dito de outra forma, não existe liberdade enquanto manifestação, em si mesma, do conceito: álibis só servem para conceder um ‘inocente’, tanto em tribunais jurídicos, quanto nos tribunais de nossa razão.

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Filed under Action, alibi, Anthropology, Domination, Freedom, Hegel, phenomenology of mind, Philosophy, Self

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