Kundera e Nietzsche põe “o mais pesado dos pesos”

Nietzsche - Munch “E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e dissesse: ‘Esta vida, assim como tua vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pesnamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’ – Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi mais divino!’

Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?’ pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” (Nietzsche, Gaia Ciência, 341)

O “das schwerste Gewicht”, o mais pesado dos pesos, carrega consigo uma gama de questões. A teoria do eterno retorno seria um meio de purificação, prova de coragem, exercício de instrospecção, guia de conduta ou imperativo existencial? Ou mesmo, aproximar-se-ia da primeira formulação kantiana do imperativo categórico (‘age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal’)?

Milan Kundera, em seu ‘A insustentável leveza do ser’ explorará esta teoria através da estética, ou seja, em personagens que encarnam tanto a negação da vida, enquanto ressentimento, enquanto consciência escrava, mas também enquanto afirmação da vida, enquanto ‘dionisíaco dizer-sim ao mundo, tal como é, sem desconto, exceção e seleção’.

Sabe-se que Nietzsche realizou uma ruptura com seu próprio pensamento, a partir de sua crítica ao romantismo que, de acordo com o filósofo alemão, era protagonizado tanto por Richard Wagner quanto por Arthur Schopenhauer:

“O que é o romantismo? Toda arte, toda filosofia podem ser consideradas como remédios e auxílio ao serviço da vida em crescimento e em luta: supõe sempre sofrimento e sofredores. Mas existem dois tipos de sofredores, aqueles que sofrem da superabundância de vida, que desejam uma arte dionisíaca e também uma visão trágica da vida interior e exterior e a seguir aqueles que sofrem de um apauperamento vital, que exigem à arte e à filosofia, a calma, o silêncio, mar sem ondas, ou então a embriaguez, o frenesi, a loucura. (…) O ser em que a abundância de vida é maior, Dionísio, o homem dionisíaco, gosta não somente do espetáculo do horrível e do inquietante, mas ama o fato terrível em si mesmo e todo luxo de destruição, de desagregação, de negação, a maldade, a insanidade, o feio lhe parecem permitidos em toda espécie, como conseqüência de uma superabundância que é capaz de fazer, de cada deserto, um país fértil.’ (Idem, 370)

Desse modo, a hipótese estética de Kundera dialoga fundamentalmente com Nietzsche: é possível viver na cosmologia do Eterno Retorno? E, o que isso significa? Quais valores peso e leveza podem ter? E, neste sentido, como o ser é encarado?

Aceitar a verdade e a essência dentro do vir-a-ser, na mudança, implica também no abandono da história e do perdão: aceitação mítica do mundo. Dito de outro modo, o mundo é ausência de intensão em um universo finito cujas combinações, desenvolvimentos, variações e posições da força do universo é enorme, praticamente incalculável, porém, sempre determinada, ou seja, nunca infinita. Sendo o tempo em que estas forças transcorrem infinito teremos, então, um círculo de determinado número de variações que se repete constantemente: ‘a atividade pode ser eterna, e o número de produtos e de sistemas de forças, finito’:

“Minha doutrina diz: a tarefa consiste em viver de tal maneira que devas desejar viver de novo – tu viverás de novo de qualquer modo! Aquele a quem o esforço proporciona o mais alto sentimento, que se esforce; aquele a quem o repouso proporciona o mais alto sentimento, que repouse; aquele a quem integrar-se, seguir, obedecer, proporciona o mais alto sentimento, que obedeça. Possa ele tornar-se consciente do que lhe proporciona o mais alto sentimento e não recuar diatne de nenhum meio! A eternidade está em jogo”

O caráter singular e irrecuperável de cada ação está posto, sua dependência de situações conjunturais e subordinação a interesses específicos onde os pensamentos, sentimentos e impulsos impõe o que fazer.

Desse modo, até mesmo o que se resigna afirma a vida! A afirmação da vida encontra-se em uma postura interna, em um aceitar, em um ter consciência para além de qualquer formalismo ou norma externa: trata-se, acima de tudo, de um experimentar-se a si mesmo nesta cadeia finita percorrendo o tempo infinito: ‘uma filosofia experimental’:

“Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, a historiografia francesa orgulhar‑se‑ia com certeza menos do seu Robespierre. Mas, como se refere a algo que nunca mais voltará, esses anos sangrentos reduzem‑se hoje apenas a palavras, teorias, discussões, mais leves do que penas, algo que já não aterroriza ninguém. Há uma enorme diferença entre um Robespierre que apareceu uma única vez na história e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a cabeça aos franceses.” (Kundera)

A investigação se põe: pode, então, ser vivido o eterno retorno? Quais as implicações de uma vida que toma, ao pé da letra, enquanto cosmologia, este princípio? E, em Kundera, este princípio participa de todos personagens ou somente de alguns? Ou mesmo, ele participa de algum ou só participa da consciência, quase terceirizada, de Kundera?

A meu ver, TODOS os personagens compartilham a hipótese posta na parte 1 e 2 do primeiro capítulo de Kundera que, também, ao longo do livro, põe, esteticamente, a descrição do que significa viver o eterno retorno em oposição ao, em termos nitzscheanos, negar a vida, resignar-se e, também, ressentir-se.

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Filed under A insustentável leveza do ser, Eternal return, Gay Science, Milan Kundera, Nietzsche, Philosophy, the Unbearable Lightness of Being

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