C’est tout ce qui nous reste

from1.jpg No seminário do ano de 1964, Lacan fez da transferência um dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise, ao lado do inconsciente, da repetição e da pulsão.Definiu-a como a encenação,através da experiência analítica,da realidade do inconsciente. Esta perspectiva levou-o a ligar a experiência à pulsão.” (E. Roudinesco e M. Plon,”Dicionário da Psicanálise”,Mem Martins, Ed. Inquérito, 2000,p. 755).

O conceito de transferência tem suas primeiras ocorrências nas obras de Freud de 1894, “As neuropsicoses de defesa” e, de 1895, na obra “Estudos sobre histeria”, cap 4. Ele é utilizado para explicar fobias e idéias obsessivas pressupondo que: i) a força desta representação é através do afeto ligado a ela; e, b) representações fortes exigem trabalho (de descarga) à mente, enquanto fracas fazem pouca ou nenhuma exigência.

Porém esta representação carrega uma incompatibilidade (pois carrega consigo afetos de dor, autocensura e vergonha) que tende a ser afastada pelo ego desvinculando o afeto, originalmente ligado a esta representação. Desse modo ela perde sau força retirando a exigência de trabalho à mente e ingressando em um segundo grupo psíquico. Mas este ingressar num segundo grupo psíquico, embora esvazie a força da representação, conduz ou a histeria, onde o afeto é convertido em algo somático, ou as obssessões e fobias, onde o afeto, incapaz de ser convertido permanece no campo psíquico ligando-se a outras representações compatíveis com o ego do sujeito. Por isso o que define a transferência é a falsa ligação, ou seja, a substituição, na vida mental do paciente, de alguém do passado dele pela figura de outro.

Freud foi um pouco mais cuidadoso. Não utilizou “o outro” mas, sim, o fenômeno da trasnferência na relação médico paciente onde a representação incompatível é a idéia de alguém do passado do paciente, enquanto que a compatível é a idéia do médico que a está tratando, acontecendo de o paciente dirigir certo tipo de afeto a ele, que só pode ser compreendido se este for remontado a alguém do passado do paciente.

Ou seja, o paciente estaria numa busca de “certificar-se de sua irresistibilidade“, “destruir a autoridade do médico rebaixando-o ao nível de amante” e, isto “fazendo uso de uma declaração de amor como meio de colocar à prova a severidade do analista, de maneira que, se ele mostra sinais de complacência, pode esperar ser chamado à ordem por isso“. Freud, em sua fundamentação da psicanálise, ao início deste mesmo texto já advertia:

Todo principiante em psicanálise provavelmente se sente alarmado, de início, pelas dificuldades que lhe estão reservadas quando vier a “interpretar” as associações do paciente e lidar com a reprodução do reprimido. Quando chega a ocasião, contudo, logo aprende a encarar estas dificuldades como insignificantes e, ao invés, fica convencido de que as únicas dificuldades realmente sérias que tem de enfrentar residem no “manejo” da transferência.”  

De fato, neste trabalho de 1914-15 (Observações sobre o amor transferencial), Freud está encerrando a triologia “Novas recomendações sobre a técnica psicanalítica”, composta pelos textos “A dinâmica da transferência” (1912) e “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise” do mesmo ano. Mas, a idéia do amor transferencial é assim restrita? Ainda mais pensando, ainda dentro do “Observações…”, que

o amor consiste em novas adições de antigas características e que ele repete reações infantis. Mas este é o caráter essencial de todo estado amoroso. Não existe estado deste tipo que não reproduza protótipos infantis.”

E se, de fato, esta forma de representação carrega consigo algo que extrapola a mera relação analítica? Sendo assim, poderíamos pensar a relação de transferência não em suas implicações ético-epistemológicas mas como algo bem mais amplo. Lacan, leitor de Hegel, parece apontar para esta hiperbolização ao mesmo tempo que apresenta algo de novo: a matriz idealista presente em nossa linguagem.

Não é preciso lembrar o Banquete para imaginar a figura do Eros: filho de Pinia e Poros, respectivamente a pobreza e o expediente, que ele é condição paradoxal:

É sempre pobre, não é de maneira alguma delicado e belo como geralmente se crê; mas sujo, hirsuto, descalço, sem teto. Deita-se sempre por terra e não possui nada para cobrir-se, descansa dormindo ao ar livre sob as estrelas, nos caminhos e junto às portas. Enfim, mostra claramente a natureza da sua mãe, andando sempre acompanhado da pobreza. Ao invés, da parte do pai, Eros está sempre à espreita dos belos de corpo e de alma, com sagazes ardis. É corajoso, audaz e constante. Eros é um caçador temível, astucioso, sempre armando intrigas. Gosta de invenções e é cheio de expediente para consegui-las. É filósofo o tempo todo, encantador, poderoso, fazedor de filtros, sofista. Sua natureza não é nem mortal nem imortal; no mesmo dia, em um momento, quanto tudo lhe sucede bem, floresce bem vivo e, no momento seguinte, morre; mas depois retorna à vida, graças à natureza paterna. Mas tudo o que consegue pouco a pouco sempre lhe foge das mãos. Em suma, Eros nunca é totalmente pobre nem totalmente rico.” 

Desejo infinito, o encontro amoroso proporciona uma calma pois o apetite é alienado no objeto alimentando a ilusão de uma completude perdida. mas, por outro lado, implica em um logro, o engano que mostra ao sujeito amante tudo o que o objeto amado não possui. De certa forma esta é a condição fenomenológica da percepção: as primeiras meditações cartesianas ad infinitum. É como se o engano, o engodo, o gênio enganador fosse constitutivo da experiência da vida humana: o erro é constitutivo do conhecimento, sua contraparte imanente. Assim como do amor.

Desconsiderando o que viria a ser o papel do filósofo na sua relação com Eros, poderíamos então pensar esse desejo infinito que busca um espelhamento (reflexo invertido de sí, no outro – que traz consigo a percepção do engano, mesmo que não intencionada pelo sujeito), ao caracterizar-se, simultaneamente por uma adição infantil de novas características (adição repetida infinitamente) nos encaminha para o ponto mais criticado da filosofia nietzscheana: a noção de identidade.

“…toda palavra se torna imediatamente conceito, não na medida em que ela tem necessariamente de dar algum modo a idéia da experiência original única e absolutamente singular a que deve o seu surgimento, mas quando lhe é necessário aplicar-se simultanemante a um sem-número de casos mais ou menos semelhantes, ou seja, a casos que jamais são idênticos estritamente falando, portanto a casos totalmente diferentes. Todo conceito surge da postulação da identidade do não-idêntico. Assim como é evidente que uma folha não é nunca completamente idêntica à outra, é também bastante evidente que o conceito de folha foi formado a partir do abandono arbitrário destas características particulares e do esquecimento daquilo que diferencia um objeto de outro. O conceito faz nascer a idéia de qeu haveria na natureza, independentemente das folhas particulares, algo como a ‘folha’, algo uma forma primordial, segundo a qual todas as folhas teriam sido tecidas, desenhadas, cortadas, coloridas, pregueadas, pintadas, mas por mãos tão inábeis que nenhum exemplar teria saído tão adequado ou fiel, de modo a ser uma cópia em conformidade com o original. Dizemos de um homem que ele é honesto; perguntamos a nós mesmos porque ele agiu hoje tão honestamente. Respondemos geralmente que foi por causa da sua honestidade. Honestidade! Isto significa novamente dizer que a folha é a causa das folhas. Não sabemos mesmo absolutamente nada de uma qualidade essencial chamada honestidade, no entanto conhecemos inumeráveis ações individualizadas e por conseguinte dessemelhantes, mas que postulamos como idênticas ao deixarmos de lado o que as torna diferentes; assim, designamos as ações honestas a partir das quais afinal formulamos uma qualitas occulta com o termo: a honestidade 

De que forma, então, a idéia do amor enquanto transferência pode ser vista senão enquanto patologia? Uma vez que o conceito funda a identidade absoluta, naturalizando e essencializando um postulado, ao tomá-lo como essencial, natural e absoluto ingressamos na doença racionalista que, indutivamente, conecta dois não-idênticos a um x onde, como que por encanto, faz surgir um idêntico, um conceito.

O amor, nesta perspectiva, é somente a reposição do conceito de mulher. Reposição ad infinitun onde cada mulher é tão somente um depositário de características, cuja matriz freudiana é a forma idealizada da mãe. Estar com uma mulher e com infinitas, não se distinguem.

Não se distingue o beijo materno de boa noite do beijo convidativo da amante, mas também de boa noite: na sua identidade só podem ser tomados enquanto não-idênticos.

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Filed under Lacan, Love, Nietzsche, Performance, Plato, Psicology, Psycanalisis, Transference

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