Justiça artística através do stress

Qual é a cara da violência?
A “Arte da ultraviolência”, como classificou o estadão de sexta, dia 16, é protagonizada pelo grupo Justice e seu novo – e polêmico – clipe stress (que pode ser conferido com excelente qualidade no my space dos caras).

A música penetra.
Aumentando o volume com aquele ritmo frenético o som eletrônico de Stress junto do clipe produzido pelos caras do Justice veio prá causar.
Causar indignação, elogios ou até mesmo polêmica: o que interessa é que ninguém consegue ficar passivo frente aos 7 minutos de violência praticadas pelos jovens na França.

Em Stress somos colocados no primeiro plano, como cúmplices silenciosos dos atos de violência, tão cúmplices quanto àqueles que observam, ao longe, estes atos na rua. O espaço público torna-se espaço de insegurança, é o fracasso da cidade: até mesmo os policiais apanham! E, se alguém não é atingido por ela, é por uma decisão arbitrária: nunca por pena ou medo.

Mas… quem são estes jovens? Subirats, filósofo espanhol professor da New York University, manifesta sua indignação. Lembra da política Francesa e Italiana para expulsarem 8 milhões de ‘sem-documentos’, ‘indocumentados’, ou seja, nas palavras do filósofo “uma metáfora da expressão midiática que designa seres humanos desprovidos de uma função econômica nas economias de mercado, e que são, por conseqüência, indesejáveis. É um conceito implicitamente racista, herdeiro da tradição nazista – material humano sem função econômica destinado aos campos de extermínio”.
A lembrança tem endereço ao clipe: ele vê o vídeo enquanto “uma representação propagandística desses ‘sem-documentos’ como criminosos” tendo em vista o fenótipo dos jovens atores.
Sua enérgica posição filosófica manifesta o antigo medo daqueles que viram o surgimento dos meios de comunicação de massa: a construção do conceito. Poderíamos pensar a questão de Subirats desta forma: sob o risco de conectarmos, necessariamente, à idéia de imigrante (ainda mais o ilegal) o (pré) conteito de violência, deveríamos abstermo-nos de apresentarmos esta mesma conexão.

Subirats, a meu ver, demonstra um erro clássico e platônico: ele pensa um juízo estético enquanto um juízo moral!

É óbvio que o preconceito é gerado a partir de um suposto critério de necessidade. Ou seja, um juízo de preconceito racial, por exemplo, surge historicamente, a partir de condições bem pontuais e, portanto, contingentes. Porém, ele torna-se uma idéia posta em prática a partir do momento em que conecta-se, com caráter de necessidade determinado comportamento a determinado sujeito [por exemplo: algumas pessoas são ladrões, outras não. Porém, toda vez que vemos um sujeito negro e pensamos que ele é ladrão – seja porque pode nos roubar, seja porque suas roupas são roubadas ou que seu cargo foi constituído através da contravenção – isto é um juízo preconceituoso. Conecta-se, necessariamente, um fato contingente – de que os negros, em nossa sociedade e, em sua maioria, ocupam posições sociais inferiores – criando assim, uma idéia preconceituosa].

Mas, se a idéia é posta com um SUPOSTO caráter de necessidade, ou seja, tomando o juízo enquanto natural ou imediato, o que é necessário para que o preconceito caia por terra? Que o juízo seja DESNATURALIZADO ou, dito de outro modo, que sejam apresentadas todas suas respectivas MEDIAÇÕES (históricas, sociais, psicológicas e por aí vai). É por isto que a arte possui um papel privilegiado: ela, enquanto põe POSSIBILIDADES daqueles limites que muitos de nós não cruzaríamos, ela faz a passagem de um juízo determinante – que determina fenômenos de qualquer natureza – para um juízo reflexivo – nele não contém aspectos vinculados a necessidade e determinação.

Subirats, desta forma, se esquece que qualquer fenômeno artístico é a essência desta mediação: ver um ato de violência em seu formato artístico me faz, antes, refletir sobre este ato do que tomá-lo, imediatamente, enquanto motor da minha ação!

Desse modo, STRESS não faria justiça à arte?

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Filed under aesthetics, Culture, france, Justice, Music, my spaces, Philosophy, pop, stress, Uncategorized, video, Violence

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