”Maio de 68” o que virou? – Paulo Ghiraldelli Jr.

”Maio de 68” não representa mais nada de importante? Depois de 40 anos das revoltas da juventude no mundo todo – por motivos variados em cada país -, o movimento que alguns chamaram de as ”barricadas do desejo” é visto como tendo fracassado e, ao mesmo tempo, mudado o mundo. Há alguma utilidade na sua lembrança senão a de criar algumas mesas-redondas em universidades?

Durante esses 40 anos, a cada ano com final 8 fizemos algum tipo de retrospecto do que ocorreu no final da década de 60. Somente agora, todavia, é que realmente encerramos os dois vagalhões iniciados ao final daqueles tempos, pela esquerda e pela direita. E talvez sejamos capazes, finalmente, de dizer algo menos tolo do que até então dissemos sobre aquela época.

Falamos em dois vagalhões. Comecemos pelo da esquerda.

Um movimento que se iniciou naqueles anos foi o de contestação do comunismo, em especial o que havia no mundo soviético e satélites. Vários que incentivaram os movimentos de ”Maio de 68”, ao menos no Ocidente, imaginavam ter nos modelos da China e de Cuba alternativas para o comunismo. Não era mais possível engolir o modelo soviético. Afinal, ali do ladinho de franceses – tão afoitos na época – estavam os jovens checos queimando seus corpos, em terrível auto-imolação contra a ditadura comunista. Passado 40 anos, o modelo alternativo mostrou-se tão caduco quanto o original soviético, e já está praticamente extinto. Pena que Cuba e China comecem a adotar o capitalismo sem pensar, ainda, em adotar a democracia.

Uma parte dos frustrados com o ”Maio de 68” optou pela ”luta armada”. Na Europa, isso significou simplesmente o ”terrorismo’ ‘ – que causou a morte de vários democratas autênticos. Foram assassinados barbaramente – Aldo Moro foi o símbolo maior dessa barbárie. Isso trouxe para a juventude que fez essa opção uma vida pouco aconselhável. Outra parte, menos autoritária, foi sendo pouco a pouco absorvida pela social-democracia tradicional ou, em seguida, pelo eurocomunismo. Nos EUA, alguns desistiram da política, esperaram as coisas esfriar e entraram para a ”política cultural”, as políticas de esquerda dentro de universidades. Jocosamente, alguns disseram a tais pessoas: ”O lema de vocês, agora, é ”tomar o poder no Departamento de Letras, já que não se pode tomar a Casa Branca”.”

Passemos para o vagalhão da direita.

Logo em seguida veio o vagalhão conservador. Ronald Reagan e Margaret Thatcher fizeram história. Aliás, fizeram história por uma razão que, muitas vezes, os que chamam todos de ”neoliberais’ ‘, sem saber o que significa a palavra, desconhecem. O fato é que Reagan e Thatcher rearranjaram a economia de seus países e deram alternativas sociais que o Partido Democrata e o Partido Trabalhista, respectivamente nos EUA e na Inglaterra, não sabiam dar na época. Quando os democratas e os trabalhistas puderam voltar ao poder, governaram países já fora da crise. É claro que pegaram países onde o Welfare State (Estado de Bem-Estar Social) havia encolhido, mas tiveram de agradecer o rearranjo econômico dado pelos conservadores.

Passados 40 anos, estamos botando a cabeça para fora do ”Maio de 68”. Temos claro que havia bem menos democratas e libertários nos protestos do que contamos, depois, aos filhos e aos netos. E o mais engraçado de tudo isso é que, já no final da década de 1980, quando alguns entre nós ainda estavam comemorando o ”Maio de 68”, e ainda omitindo o fato de que os ideais desse movimento não eram todos em favor da liberdade como pareciam, veio a inesperada queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. Então, logo em seguida eclodiram as revoluções do Leste Europeu, que resultaram no estupendo fim da União Soviética (URSS). O comunismo estava acabado. A revolução armada saiu pela culatra: veio do lado oposto e em nome da liberdade individual – neste caso, sim, os melhores dias do ”Maio de 68” vingaram.

E 40 anos depois, a menor flor do ”Maio de 68”, a democracia, tornou-se efetivamente a única bandeira digna de defesa. Tal qual o fim da escravidão, ou a condenação do racismo, ou a defesa dos direitos iguais para mulheres, ou a proibição do trabalho infantil, a democracia está cada vez mais se tornando um cartão de visita. Ou praticamos alguma democracia e, então, nos dizemos civilizados, ou não podemos abrir muito a boca, pois somos vistos como bárbaros, a despeito do nível tecnológico que nossas sociedades possam apresentar. Essa flor menor do ”Maio de 68” cresceu e acabou se tornando mais forte do que as outras que estavam ali juntas, naquele tempo.

É claro que iríamos escutar, à direita e à esquerda, nas mesas universitárias de maio, agora, em 2008, alguns falando de Cuba ou da China como lugares ”de esquerda” e que ”vencerão o imperialismo’ ‘. Essas palavras de ordem do porão, que não dizem nada de concreto, sempre sairão da boca de algum maluquinho. Também veríamos algum tolo querendo mentir para os mais jovens, colocando Marcuse e outros frankfurtianos na vala comum de heróis socialistas lambuzados por tolices de Chomsky, em vez aproveitar a parte libertária dos escritos dos grandes filósofos que movimentaram 68 – aqueles conteúdos mais condizentes com a ampliação da democracia. Mas, agora, esse pessoal já fala para bem menos pessoas. As mesas são poucas. Talvez seja até melhor assim.

O ”é proibido proibir” de ”Maio de 68” foi, de fato, derrotado. Mas já estava derrotado ali mesmo, entre seus pares. Foi preciso que todas as grandes tendências autoritárias que estavam contidas naquelas jornadas explicitassem os seus projetos nos anos 70, 80 e 90 para que pudéssemos, agora, começar a perceber que só o ”proibido proibir” tinha algum sentido. E ele apontava para o regime menos charmoso de todos, a democracia.

Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo Site www.ghiraldelli. pro.br

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