#10/7/2007

Dormir e acordar não tinham mais diferença. Sempre havia escutado histórias tenebrosas ou mesmo visto seriados de ficção científica ondeo dia e a noite, memória e esquecimento, sono e vigília confundiam-se. Na verdade, já tinha escolhido isto enquanto estádio alcoólico, acoolizado.

De modo diferente isto manifestava-se agora.

Não contava nem ousava dizer seus sonhos. Não ligava para sonhos. Mas sonhava. E eles eram, nada mais, nada mesnos que extensões da realidade: não se distinguiam mais dormir e acordar.

Como fugir disto?

Uma idéia: vasculhar o passado. Refazer a memória e, restituindo os instantes passados enquanto passados, reconstituiria o presente e o futuro: fácil.

Assim, buscou caixas, cheiros, gavetas, fotos em celulares, paisagens, gestos no espelho, músicas… Vivia e revivia o passado. Voltou à cidade natal para provar a terra, farejar o gosto, tocar o cheiro…

Adiantou?

Piorou.

O sonho vingou-se, implacável. Agora, não reconhecia mais as figuras: sua vida trasformara-se em um caso psicanalítico. As representações confundiam-se.

De repente, portas tinham personalidade, pessoas que amava, odiava, esquecia e trocava os nomes, suava no frio e tremia no calor, ria quando triste e chorava quando alegre. Vivia um mundo invertido.

Como girar o mundo ao contrário? Como?

Pode?

Advertisements

Leave a comment

Filed under Anguish, Poetry, Self

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s