Erro e alienação – Bento Prado Jr.

Erro e alienação
BENTO PRADO JR.

Em memória de Gérard Lebrun, cidadão honorário de São Paulo (1)

“La vraie philosophie se moque de la philosophie” (2) Blaise Pascal

Há dois ou três meses, tomava notas a respeito de uma questão que me obseda há tempos, e à qual já consagrei inúmeras páginas, quando tive a triste notícia da morte de Gérard Lebrun. Voltei então a seus escritos e descobri, com uma injustificável surpresa -como falha nossa memória…-, o quanto meus temas e problemas atuais deviam às aulas ouvidas na rua Maria Antonia, há tanto tempo, na década de 60. É nos livros, então inéditos, sobre Kant e Hegel que vim a reencontrar, agora, uma interrogação contínua a que fui muito sensível, sem plena consciência de seu sentido, nas exposições que precederam a publicação. Em textos recentes (3), eu havia examinado algumas instâncias da confusão “categorial” entre erro, sonho, ilusão e loucura, recorrentes na filosofia contemporânea, a serem corrigidas (como deve ser corrigida a própria idéia de “erro categorial”) por uma revalorização do valor crítico da história da filosofia na estratégia geral do pensamento.

Penso aqui, é claro, nas dificuldades de que não escapa o próprio Ryle, em seu belo livro “The Concept of Mind”, mas que só chegam ao paroxismo na vertente “red neck” (caipira) da filosofia analítica, com Searle, por exemplo.

Pequena obra-prima
Mas não falo apenas dos dois grandes livros sobre “Kant e o Fim da Metafísica” e “A Paciência do Conceito”. Minha grande surpresa foi redescobrir um pequeno artigo traduzido e publicado por Rubens Rodrigues Torres Filho sob o título de “Do Erro à Alienação” (4), que ainda está inédito em francês. Trata-se de uma pequena obra-prima, consagrada ao novo estatuto atribuído por Kant à idéia de “erro”, em contraponto a toda a tradição do pensamento clássico. O ponto de partida é a reflexão 3.707, sobre a “Certeza e Incerteza do Conhecimento em Geral”.

A idéia central é a de que não se pode derivar a possibilidade do erro do simples reconhecimento da “incerteza objetiva” ou da finitude de nosso conhecimento. “Se o diâmetro aparente de uma estrela é conhecido, mas sua distância desconhecida, a verdadeira grandeza dessa estrela permanece incerta ainda que dessa incerteza por si só não possa nascer nenhum erro”.

Lebrun interpreta o texto kantiano colocando-o sobre o fundo da história do processo de exorcismo do erro, desde o “Teeteto” e “O Sofista” de Platão até as “Meditações” de Descartes. A empresa do “Teeteto” termina em aporia: Sócrates impõe a seu interlocutor a espinhosa escolha: “Ou não há falsa opinião, ou é possível não saber o que se sabe. Qual dos dois você escolhe? Você propõe uma escolha embaraçosa, Sócrates. E no entanto o argumento periga conservar os dois” (196 c-d). Essa dificuldade é, todavia, contornada por Platão, que acaba por dar estatuto ao erro, embora esvaziando-o de toda “positividade”. E isso através da distinção entre “constatação” e “juízo” ou entre conteúdos atômicos do pensamento e seu entrelaçamento no “logos”. “Com o “logos” predicativo, abre-se o espaço no qual os absurdos não são mais ontologicamente impensáveis e onde as distorções de sentido não são mais alucinações: com o benefício do jogo entre conteúdo representativo e julgamento, pode-se “dizer”, sem ser louco, aquilo que não se “verifica'” (5).

O erro, como a verdade, ocorre apenas no interior do juízo. É bem essa mesma operação que será reativada pelo Descartes da Quarta Meditação: não há, no entendimento, como simples faculdade de representação, lugar para o erro; nenhuma idéia, tomada em si mesma, é falsa; só com a intervenção do livre-arbítrio, que opera o julgamento, torna-se possível o erro. A vontade, infinita, pode negligenciar a finitude do entendimento, fazendo-me “formular um juízo sobre uma coisa, quando não a concebo com suficiente clareza e distinção”.

A obra de Lebrun é uma interrogação sobre a ilusão como destino do pensamento.

Não é, portanto, na finitude do entendimento (ou na natureza de nossas faculdades) que o erro encontra sua origem. Há uma etiologia do erro, é claro, mas puramente “psicológica”, que não compromete de modo nenhum nosso saber, que não remete a nenhuma sombra intrínseca no cristalino coração da “luz natural”. Eis que, mais uma vez, é fornecida a resposta que Teeteto não foi capaz de dar a Sócrates, desmanchando a alternativa socrática, mostrando que pode haver opiniões falsas e que não podemos nos enganar a respeito do que sabemos (6). Mas será que o pensamento clássico é realmente capaz de dar conta da realidade do erro? Parece que só é capaz de fazê-lo a um preço muito alto, ou seja, o de reduzi-lo à sua forma mais trivial. Kant parece, é verdade, retomar em seu próprio nome essa concepção cartesiana do erro: “Em certo sentido, bem se pode fazer do entendimento o autor dos erros, ou seja (…) por falta de atenção devida a essa influência da sensibilidade (…)” (7).

Positividade do erro
Mas, voltando à reflexão 3.707, de que partimos, Lebrun mostra que o problema de Kant é justamente o de remover a base sobre a qual repousa o “otimismo epistemológico” do pensamento clássico, que só dá direito de cidadania ao erro sob a condição de reduzi-lo a uma mera “inépcia”, como quando confundimos Teodoro com Teeteto ou quando julgamos que 2+3 = 6. E essa base é o sólido chão de certeza que permanece intacto de Platão a Descartes e Espinosa: que nada posso conhecer sem conhecer “aliquid”, “algo” e “algo que é”. Ou, ainda, que a idéia de erro é pensada sobre o fundo da ancoragem ontológica do pensamento no ser ou na verdade em-si. No limite, Espinosa e o Sócrates do “Teeteto” são os mais consequentes: essa ontologia é incompatível com o “fato do erro”. Para fazer justiça ao erro é preciso subverter essa ontologia e essa concepção do Saber. É a hipótese recusada como absurda por Platão (“Isso mesmo de que temos o saber, ignorá-lo, não por ignorância, mas pelo próprio saber que se tem dele”) que aqui recebe direito de cidadania e dá lugar a uma teoria positiva do erro como ilusão necessária, ou como auto-engano. Lebrun descreve essa reviravolta: “Mas tudo mudaria se esse Saber-testemunha constituísse justamente a ignorância em pleno coração do saber (…) que Platão julgava inimaginável, se a Ciência de que os clássicos fariam a medida de nossas distrações fosse esse Não-Saber que se dá a aparência do mais elevado saber” (8). Com Kant apaga-se a clara fronteira que separava o Saber do Não-Saber e o erro deixa de ser um acidente externo à estrutura da Razão. Não é apenas o sono que produz fantasmas: a própria Razão, quando não retificada pela revolução crítica, deixa-se levar pelas Aparências que ela mesma secreta e podem, estas sim, fornecer a verdadeira e positiva etiologia do erro.

Dura crítica
Mas que não nos enganemos: ao percorrer aqui, como alhures, a formação da crítica da ilusão metafísica, Lebrun não o faz inspirado por qualquer forma de “positivismo”; a “epistemologia” não é necessariamente o “télos” último da Crítica. Pelo contrário, consagrou, ao livro de Piaget sobre “Sabedoria e Ilusões da Filosofia”, uma dura crítica que visava justamente a ingenuidade de seu positivismo. A mesma inspiração será encontrada no livro consagrado a Hegel (9), em que a Dialética será compreendida menos à luz do Saber Absoluto (apressadamente interpretado como retorno ao dogmatismo, como doutrina ou “Theoria” infinita, como a “visão em Deus” dos clássicos) do que como a dissolução sistemática dos pressupostos e das ilusões da representação e do entendimento finito. Como se a antifilosofia de Nietzsche (explorada em “O Avesso da Dialética”, Companhia das Letras) já estivesse embutida na própria dialética hegeliana.

Libertação do olhar
Liberta do império da Representação ou da verdade-em-si dos clássicos, a dialética hegeliana é uma nova prática nada dogmática do discurso, “… sem decidir inscrevê-la a priori nas oscilações da práxis humana ou na linha de alguma história do Ser (10), e deixando essas peripécias da linguagem como que suspensas entre céu e terra. Mas essa libertação do olhar, que pode muito bem não conduzir a nada e de que alguns textos de Wittgenstein dão uma idéia muito justa, é insuportável, é claro, para os espíritos religiosos” (11).

Genealogia
A obra de Lebrun, como historiador da filosofia, é toda ela animada por uma mesma interrogação, propriamente filosófica, sobre a ilusão como destino do pensamento. Como sugere Pascal, na frase em epígrafe, a antifilosofia não é externa à própria filosofia: mesmo porque só se pode verdadeiramente rir da filosofia, quando é através dela mesma que se ri. Pois a interrogação filosófica não é necessariamente a busca do Sentido Último das coisas, que poderia garantir nossa “segurança moral”.

É outra a interrogação que atravessa a obra de autores tão diferentes, como Pascal, Hume, Kant, Hegel e Nietzsche -todos presentes no álbum de família de Lebrun-, que visa não o repouso final na posse de um Saber ou da descoberta de um Fundamento, mas, como diz Foucault, a tomada de consciência da “desorientação daquele que conhece” (12). É na empresa genealógica de Foucault ou na iniciativa “anarcôntica” (13) de Hume que Lebrun encontra os modelos mais próximos de sua atividade histórico-filosófica (14).

Se apresentamos assim grosseiramente o belo ensaio de Gérard Lebrun -e seu horizonte mais largo-, foi na esperança de levar o leitor a abrir o pequeno livro (15) “Sobre Kant”, onde ele está contido. Aí poder-se-á encontrar, entre outras coisas, uma excelente introdução à totalidade da obra desse autor que tanto marcou a filosofia no Brasil. Se ao menos um leitor aceitar esse convite, a publicação deste artigo terá sido plenamente justificada.

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