Epistemologia: uma entrevista

  1. Bachelard foi um epistemólogo francês e uma das teses que ele defende é que a relação entre o conhecimento científico e o senso comum se dá através de uma ruptura, ou seja, a relação entre eles não é de uma continuidade. Quando, por exemplo, um leigo em biologia pensa sobre vida, para Bachelard, seria algo completamente diferente de quando um biólogo, em seu laboratório, pensa também, a palavra vida. Embora sejam a mesma palavra, denominariam coisas completamente diferentes. Então, em que medida a biologia realizaria esta ruptura?
  2.  

    Não acho que eu concordo com isso não. Eu acho que isto é uma… proposta que se aplicaria muito bem para as ciências físicas em geral, quando elas estão em seu nível mais específico como cosmologia e física quântica, coisa do gênero onde, realmente, não há relação alguma com o real, ou melhor, com o cotidiano.

    Já na biologia, pelo objeto de estudo estar muito mais próximo da vivência cotidiana das pessoas, acredito que a maioria das pessoas, mesmo no senso comum, tem hipóteses e constroem abstrações sobre o funcionamento da vida tanto do ser humano… tanto da face biológica do homem quanto das outras espécies que está próxima as abstrações realizadas pelo cientista no laboratório, embora aja outro nível de compromisso com estas abstrações.

     

     

  3. Que tipo de compromisso seria esse? E exatamente, a partir de que essa abstração, se, talvez ela não exista de fato, enquanto finalidade de uma ciência, como no caso da biologia, isso não se daria? Cito como um exemplo, que, para os experimentos que se fazem em laboratório, muito da “vida” é produzida artificialmente…
  4.  

     

    O compromisso seria… enquanto para uma pessoa no cotidiano estas explicações estão em um segundo plano e não fazem parte das questões principais da vida desta pessoa, são simples questões que a pessoa se depara em alguns momentos, para um cientista no laboratório seu objetivo é produzir estas abstrações.

    Eu concordo que o grande objetivo ideal da ciência seja romper com o senso comum. Só não acredito que isto ocorra na prática do laboratório… Apesar do seu exemplo de produzir vida artificial seja um tanto exagerado e radical, é… eu acho que apesar de todo este distanciamento que há entre o concreto e o cotidiano dentro de um laboratório, o fazer científico não está… desvinculado de um senso comum e de um aparato de olhar para o mundo, de fazer questões que… é… característico, semelhante ao senso comum.

     

     

  5. Bom… é inegável que, sei lá, em Aristóteles já vemos isso, que todo interesse, mais ou menos nas palavras dele, todo conhecimento, episteme, sabedoria, nasce de… é algo natural, inerente a todo ser humano. Ansiamos por conhecer. Mas, por outro lado, sabemos que a construção da história das ciências se caracteriza por uma determinada ruptura com o senso comum… a questão que fica é se essa ruptura é de grau ou de natureza, certo? Então tu aproxima a prática científica da prática cotidiana de questionar fatos no mundo? E, nesse sentido, qual seria o papel social do cientista?
  6.  

     

    Tá… acho que você definiu muito bem, resumiu muito bem o meu ponto da questão anterior. Acho que a ruptura é uma ruptura de grau e, é… que eu acho que o papel social do cientista não deveria ser só dele. Afinal, a investigação do mundo e a busca pelo conhecimento deveria ser uma busca de todas as pessoas.

     

     

  7. Tá.. mas… sabemos que, de certo modo – se não de todo – a prática científica, hoje, não só se distancia como também se estrutura de um modo… quase que de produção. Ou melhor, é um modo de produção. Acontece que, se essa produção representa um tipo de trabalho, assim, do operário ao geneticista, ou… enfim, essa produção não só recebe um valor social bastante diferenciado como também se dá de modo diferenciado. Poderíamos pensar que o Estado se vale de trabalho braçal ao mesmo tempo em que necessita de trabalho intelectual. Tudo bem que deveria ser uma busca de todas as pessoas mas, nesse sentido, como aquele trabalhador braçal poderia pensar conseqüências éticas frente a um trabalho conceitual de laboratório, como o do geneticista para, aprovar esta “busca de todas as pessoas” ou reprová-la?
  8.  

     

    É… acho que o problema começa quando se tem essa ruptura entre trabalhadores braçais e trabalhadores intelectuais já que… já que esse trabalhador braçal precisa pensar conseqüências éticas mas foi privado de ter condições de… de compartilhar este conhecimento construído por uma minoria de trabalhadores intelectuais.

    Nesse sentido que eu dizia, anteriormente, que… é… que o, dar apenas ao cientista o papel social de produzir o conhecimento é algo perigoso.

     

     

  9. Canguilhem nos diz que a história pura (sem preocupações epistemológicas) de uma ciência debruça-se somente sobre aquilo que os sábios da época investigavam. É possível que essa ciência do passado seja o passado da ciência atual? Uma disciplina pode ser considerada a mesma, se assumirmos que o progresso científico se dá por rupturas?
  10.  

     

    Se um cientista busca contar a história de sua disciplina de estudo.. ele vai contar a história de forma que aquilo que estuda hoje tem uma história de formação linear. Assim, essa disciplina vai ser considerada sempre a mesma desde o momento que se costuma dizer: “surgiu o pai da disciplina”… e, nessa história, as rupturas que ocorreram vão acabar sendo menos percebidas já que a história está sendo contada de trás para frente.

    Mas um cientista nunca diria isto…!

     

     

  11. Por quê?
  12.  

     

    Porque eles acreditam que a verdade sempre triunfa.

     

     

  13. Mas, de certo modo, ela triunfa. A questão é que tipo de verdade estamos falando…
  14.  

     

    Tá, você vai ouvir um: eu concordo, né?

     

     

  15. Sim, claro… Mas, se concordamos que, se a verdade nas ciências parte de uma disputa entre interpretações, mesmo assim ficamos com aquele problema do ponto de vista ético, da regulação… De certo modo, caberia isso a… cientistas do próprio campo? Que, por sua vez, estariam interessados em, como tu disse, “olhar sua história de trás pra frente”? Como poderíamos pensar, então, dentro do teu campo, da biologia, o papel de um epistemólogo?
  16.  

     

    Você quer a minha opinião ou o que acontece?

     

     

  17. Olha… podemos ver as duas, não?
  18.  

     

    Eu acredito no papel do epistemólogo como um… como um cientista capaz de estudar a construção do conhecimento e com… não autoridade.. condições de perceber de um ponto de vista mais… distante, as relações e disputas dentro das ciências.

    Tenho que aceitar, no entanto, que essa visão não é compartilhada pela maioria dos cientistas que acreditam que seu conhecimento técnico e teórico sobre o seu campo o torna o melhor avaliador das questões éticas e sociais envolvidas nas práticas científicas, nas suas práticas científicas.

     

     Leonardo Ré Jorge é mestrando em Ecologia pela UNICAMP, universidade da qual realizou também sua graduação. Atualmente está terminando suas atividades de pesquisa junto a um laboratório no departamento de zoologia da UFRGS.

     

     Digressão:

    Tentando pensar conjuntamente com Bachelard, atribuindo verdade às suas premissas, poderíamos então, pensar que, de certo modo, as reflexões de Leonardo estariam erradas, uma vez que ele nega a idéia de ruptura. Porém, se nos determos mais um momento, poderíamos pensar que, para o campo da epistemologia das ciências humanas – ou frente a uma ciência social das ciências naturais, que é uma e a mesma coisa – o entrevistado seria considerado como um leigo, ou seja, ele estaria “atrás” da linha de ruptura entre senso comum e juízos do campo que nos propomos a investigar.

    Desse modo, forçando os argumentos, poderíamos supor que pensar bachelardianamente nos faria pensar: se, dentro de seu campo científico, da ecologia, Leonardo realiza uma ruptura com o senso comum, dentro do seu laboratório, não ocorre o mesmo quando ele se propõe a pensar a partir de nossa perspectiva.

    O interessante nesta forçagem é que seríamos obrigados a dizer que um juízo proferido por um geneticista de que “a violência se reduz às suas bases biológicas” seria um juízo advindo do senso comum, embora, ao nomear cadeias genéticas ele, de fato, realizasse essa ruptura. Dito de outra forma, todo cientista realiza e não realiza uma ruptura, uma vez que só idealmente ele conseguiria, sozinho dar conta de todos os juízos científicos possíveis. Mas poderíamos estender isto também às cidades científicas: mesmo que todas as áreas de conhecimento se unificassem, criando um corpo científico capaz de pensar diferentes perspectivas sobre uma e mesma questão, ainda assim este corpo não daria conta de todas rupturas possíveis.

    Ao hiperbolizarmos os conceitos de ruptura e a idéia da insuficiência do intelecto humano – Bachelard, provavelmente não aceitaria este argumento pois, esta insuficiência se daria somente no campo individual -, podemos perceber a face que nos interessa, a saber:

    Quando epistemólogos das ciências humanas dizem que um geneticista visa justificar questões de nosso campo com premissas dele – como seria o caso de justificar a violência com bases genéticas, para seguir com nosso exemplo -, estariam no “passo atrás” da ruptura. Ou seja, este juízo não perceberia a finalidade de uma ciência natural, que, pelo nosso exemplo, nada mais, nada menos que elaborar abstrações sobre a matéria genética.

    Ainda assim, sobra a questão: neste “mundo” seria ainda possível um pensamento – individual ou coletivo – que conseguisse unificar estas interpretações fragmentadas? E, sendo as determinações do que é ou não finalidade de um campo, dadas somente por disputas internas ao campo maior dos cientistas (englobando naturais e sociais), é ainda possível a sociedade estabelecer critérios normativos de caráter ético?

     

    Entrevistadores: José Leonardo Ruivo, Carolina Terra

    Entrevistado: Leonardo Ré Jorge

2 Comments

Filed under Carolina Terra, Epistemology, José Leonardo Ruivo, leonardo Jorge

2 responses to “Epistemologia: uma entrevista

  1. Boa noite!!
    Gostaria de saber qual a diferença marcante entre a epistemologia de Bachelard e a de Canguilhem?
    Muito obrigado,
    Eduardo

  2. poars1982

    Caro eduardo,
    me envia um email (jleonardo_ruivo@yahoo.com.br)?
    prometo te responder nas próximas semanas.
    um abraço.

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