Por que um artista faz o que faz – Eduardo Veras

Zero Hora, 6 de dezembro de 2008.

“Vicky Cristina Barcelona” em cartaz em Porto Alegre sugere questionamento sobre os motivos da arte

P­or que a pessoa faz arte? A pergunta vem a propósito do filme Vicky Cristina Barcelona, o mais recente Woody Allen, em cartaz já faz um mês em Porto Alegre e com bom desempenho nas bilheterias. Muito já se escreveu sobre o filme – inclusive sobre seu bom desempenho, algo incomum em se tratando de Woody Allen, cineasta de público apaixonado e fidelíssimo, mas cada vez menos vasto. O sucesso explica-se, talvez, pelo que Vicky Cristina promete (e cumpre) em torno de uma tradicional fantasia masculina: a do sujeito que partilha da intimidade de duas garotas. Duas garotas ao mesmo tempo, uma e outra, as duas de uma vez. Sendo que as garotas, no caso, são Scarlett Johansson e Penélope Cruz. Some-se a isso o tal sujeito, o ator espanhol Javier Bardem, já comparado a um miúra puro-sangue, com fartas doses de vinho tinto, as paisagens de Barcelona e Oviedo, o narrador à la Truffaut, a Vicky do título (a atriz americana Rebecca Hall), mais piqueniques, sombras generosas, alguma poesia, passeios de bicicleta.

Por que a pessoa faz arte? Não é, quem sabe, a pergunta mais estimulante em um filme com tantos atrativos, mas não deixa de ser curioso que até agora, ao que parece, ninguém a tenha feito. Ocorre que os personagens de Bardem e Penélope são pintores. Pelas tantas, ele reconhece, sem culpa e quase nenhum embaraço, que copiou o estilo dela. Cristina, a personagem de Scarlett, americana que pretende ir além do turismo em sua temporada catalã, também é artista, ou pelo menos deseja sê-lo. Rodou um filme de 12 minutos sobre o amor. Depois, ficou meio sem assunto e sem meios. Anuncia: “Tenho tanto para expressar, mas não sei como fazê-lo”. Seduzida e estimulada pelos novos amigos, começa a fotografar.

O impasse que ela verbaliza – ter, mas não saber – é caro a Woody Allen. Já aparecia em outros filmes dele. No já distante Interiores (Interiors), de 1978, uma das protagonistas comentava que a irmã contava com tudo para ser artista: o perfil, as preocupações, as latências. Só lhe faltava talento. Assim como em Tiros na Broadway (Bullets over Broadway), de 1994, havia o tema do artista que copia outro – o final, ali, era redentor, o artista que copiava permitia-se o direito à mediocridade. Aliás, o final falsamente apaziguador é outra recorrência no Woody Allen de Vicky Cristina Barcelona. Esse conformismo sereno, que não se viu em O Sonho da Cassandra (Cassandra’s Dream), do ano passado, já estava em Match Point, de 2005, em A Outra (Another Woman), de 1988, e até no já clássico Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall), de 1977. Voltemos, porém, à questão de por que o artista faz o que faz.

Ter tanto a expressar e não saber como fazê-lo não é algo que se possa resumir a uma hesitação juvenil, hesitação de quem ainda procura uma vocação, em uma espécie de esperança essencialista. Há potência no questionamento. Curiosamente, de forma meio enviezada, isso apareceu em duas falas mais ou menos recentes em Porto Alegre: a do artista plástico norte-americano Richard Serra, que veio para uma conferência no ciclo Fronteiras do Pensamento, e a do crítico e curador carioca Ronaldo Brito, que fez palestra em torno da exposição Belo Caos, em cartaz na Fundação Iberê Camargo. Ronaldo, em seu elogio à pintura do carioca Jorge Guinle Filho, lembrou que nenhum artista decide o artista que vai ser. Pretendia com isso enfatizar que o dionisíaco Guinle, de cores exuberantes, matissianas, jamais poderia ser um minimalista, limpo, depurado.

– Só é o artista que quer ser aquele que não é artista – sublinhou.

Daí a falta de constrangimento na sinceridade de Juan Antonio (Bardem) quando admite que se apropriou da arte de Maria Elena (Penélope). Mesmo aquele que copia há de se libertar da cópia. A propósito, disse Picasso, espanhol como Juan/Bardem e Elena/Penélope: “O que há de errado com o pintor que pinta como outro, que imita outro? É uma ótima idéia. Você deveria tentar pintar constantemente como outra pessoa. O problema é que você não consegue. Você gostaria. Você tenta. Mas é um fiasco. E no momento em que fracassa tentando é que quem você realmente é aparece”. Daí também o elogio à dúvida de Cristina (Johansson): tanto a expressar e não saber como fazê-lo. Nenhum artista decide o artista que vai ser.

Por que então a pessoa faz arte? Tanto a expressar e, por vezes, não sabê-lo. Às vezes, o desejo e a necessidade de copiar o outro. O fracasso nessa empreitada. O fiasco que se faz sucesso. Quem você realmente é. Richard Serra, 69 anos, o escultor das monumentais chapas de aço, quase minimalistas, lembrou em Porto Alegre que um artista faz o que faz como uma forma de enfrentar o inimigo comum de nós todos: a morte.

– As pessoas – disse – precisam encontrar uma forma de expressão para mitigar sua identidade, para se verem melhor.

Cristina faz fotografias. Woody Allen, 73 anos na última quarta, faz um filme depois do outro, na média de um por ano. Volta e meia, o mestre do cinema toma como pretexto aquela velha pergunta, questionamento juvenil apenas na aparência:

– Por que é mesmo que a pessoa faz arte?

 

 

2 Comments

Filed under Arts, vicky cristina Barcelona, woody allen, Zero Hora

2 responses to “Por que um artista faz o que faz – Eduardo Veras

  1. Simone Núñez Reis

    Um texto descolado e liberto do vácuo hermetismo conceitual! Parágrafos sensívelmente tocantes…Passo a passo, linha a linha um bolero intelectual!

  2. Lilly Santana

    Adoro desenhar roupas!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s