Memória, desejo, Mecânica

Ao observar seu rosto no espelho, verifica o cabelo.
Verifica a barba e imagina se, de fato, está bonito. Ou, já que nunca achou-se digno, possuidor, de beleza; verifica se está… apresentável.

É natal: “E, ela só não me deu um pé-na-bunda, naquele dia, só porque eu lhe dei um belo presente. Assim, ela esperou mais algumas horas, após a festinha, esperou o amanhecer, esperou o almoço passar, esperou que eu acordasse. Fez questão de ligar e, em 15 minutos, tinha terminado tudo. Ainda lembro o vazio que ela me jogou: odeio lembrar do vazio.”

Quanto tempo passou de então. Olha-se no espelho. Quem era essa pessoa: não lembra o nome. Mal lembra o rosto… e o cheiro? E o gosto? E… como tudo começou?

“Eu não sei”
Nome por favor…
Idade, por favor…

Percebe uma ruga. Uma marca constante, ao meio da testa, cada dia, cada ano (cada hora (!)) mais profunda: é quase uma cicatriz.

Cicatriz de quê?

Em algum momento, antes de um Não Sei, antes de agora, existiu um interdito. Um tabu. Uma marca.

Como sabes? “Ela manifesta-se diretamente na memória”; impedindo, a cada instante da propagação de um desejo que não seja instantâneo, presente. Em especial, serve para impedir com que desejos não realizados propagem-se, desse modo, a sensação de falta ou ausência não é experenciada.

Com precisão medicinal (o pensamento, como guia da linguagem-bisturi que corta-recorta o mundo em precisão analítica) descreve a mecânica mental.

E, como mecânica “precisa-se de combustível”, de energia: “uma vez que a memória opera passivamente (enquanto receptor, via sensorial, de toda e qualquer coisa), e uma vez que nossa capacidade mental de disponibilizar destas informações é via seleção inconsciente, vemos que, nesse caso específico, o critério do inconsciente, de seleção memorial é a presença experencial do gozo”.

Trivial: uma vez que opera-se negando a falta, o gozo toma plano. Mas como opera este impulso de negação? Como resolve-se a mecânica mental, neste caso?

“Simples. Ela opera via ódio. Para tanto, a cada sensação de falta, como um choque, o inconsciente despeja uma carga gigantesca de ódio, capaz de anular ou, pelo menos, distorcer, a memória. Desse modo, ficam pessoas sem rosto, cheiros sem correspondente, palavras sem enunciador, conteúdo sem forma”

– Qual era o nome de sua primeira namorada?
– Não sei.
– Lembras de algo dela?
– Era natal…

Exemplificado de modo magistral, conseguimos perceber nos mínimos detalhes linguísticos a mecância a qual nos referíamos acima: memória recebe – causação de força no corpo – categorização da força – causação de ausência – negação do inconsciente – produção de ódio – apagamento mental.

“Cinco dias depois. Muitas pessoas pela rua. Horas refletindo sobre a própria mecânica: surge um nome. Eveline. Era ela…”

– Aqui, caso da eficácia do movimento consciente: enquanto campo de força, o corpo abriga infinitos desejos em disputa constante. Dado que o inconsciente é força oculta, soterrada – e combatente infinita do próprio consciente – ao torná-la presente, ao refazer o choque, ao refazer a mecânica vislumbra-se a sensação, o cheiro, a figura, o nome e o enunciador.

Agora, resta responder como um desejo, expresso enquanto vontade, pode ser negado enquanto ação, mas ainda assim, manter-se expresso enquanto vontade. Aristóteles denominava este movimento do sujeito, a percepção da boa (mesmo que aparentemente) ação seguida da negação desta mesma ação, de akrasia; em vocabulário kantiano: fraqueza da vontade (a razão, em seu uso prático, é a responsável por produzir a vontade. Se ela, enquanto produtora, só é ouvida, nunca executada, mostra-se fraca em relação a algo outro, ao desejo em geral).

Advertisements

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s