Só: sozinho, solitário.

Se escrever sobre algo refletisse um pensamento e, se todo pensamento, refletisse um modo de ser e se, isso tudo, fosse chamado de filosofia, então, este seria um texto filosófico. Mas, se assim fosse, (porque isto não é um texto, e porque não pode ser considerado filosófico), chamar-se-ia de ‘Um ensaio acerca da sinonímia solitário-sozinho’.

A algum tempo atrás, eu acreditava que Descartes era o responsável por inventar uma escrita calcada no sujeito. Isso porque, elaborar um argumento cuja conclusão é ‘Eu penso, Eu existo’, explicitamente, calca no EU as propriedades de pensar e, também de existir.

Eu acreditava. Mas, estudando um pouco de filosofia, descobre-se que, na verdade, essa textualidade é herdeira de algo que os gregos desconheciam, que é uma referência fechada ao indivíduo. De certo modo, embora um tanto quanto diferenciado, isso pode ser encontrado, ao menos enquanto ponto de transição, nas Confissões, de Santo Agostinho.

Deixando de lado o católico escolástico e o católico pré-moderno, pensemos um pouco na idéia de uma confissão. Alguém que confessa algo, confessa algo PARA alguém.

Nesse sentido, qualquer modelo de escrita que expresse um pensamento, ele é, em primeiro lugar, racional (porque utiliza-se de uma ordenação que, de algum modo, lhe dá sentido). Mas, também, ele é intersubjetivo (porque esse mesmo sentido só existe para um outro). Pensemos em uma situação católica banal: todos dias, ao entardecer, Agostinho e Descartes rezavam (embora àquele fosse mais de uma vez…). Pois bem, suas preces, no mais das vezes, eram preces solitárias: inclusive poderiam ser proferias em voz alta! (a prece, em voz baixa, é coisa mais contemporânea, é quando uma sociedade passa a rezar em casa – e não mais na Igreja -, e reza quieta para preservar os vizinhos – de casa e de quarto – de fundamentalismos religiosos, esmolas transcendentais ou ações vergonhosas).

Se a prece é proferida – mesmo que em pensamento -, é porque ela exige que um outro – ou, um Outro, pois é de Deus quem estamos falando! – a compreenda. Ora, se ela exige um Outro, e uma compreensão Deste, então é ato intersubjetivo.

Mas, também, é ato para se fazer só.

Bom, imaginemos a cena: lá está Santo Agostinho, orando, confidenciando seus anos de libertinagem pura, libertando-se dos males que o demônio tinha lhe oferecido – e ele, como bom sujeito, aceitado. Ele está só. Mas, ele está solitário? Não.

Calma, leitor! Não pensei que irei dizer que ele não está solitário porque ele está conversando, em companhia com o Todo Poderoso. Não é essa minha intenção.

O que quero dizer é bem mais simples – para àqueles que visam fundamentar a idéia, ou a existência, de Deus, fiquem à vontade para enfiarem seus argumentos aqui no meio. Aqueles que constituem um universo interno, estes constituem a solidão. Eles são seres solitários, mesmo em multidões.

O sozinho, por sua vez, não é um solitário. Um sozinho carece de um encontro com o Outro – aqui, tomado no sentido hegelo-lacaniano do termo -, ou seja, com seu universo interno de intelecção.

Se, de fato, podemos constituir uma ponte entre os que se confessam e a idéia da constituição de uma personalidade, de uma pessoalidade única, particular, diferente de todo o resto, é porque construímos e apostamos que a solidão é algo imanente à nossas vidas.

Talvez, o português não permita este salto. Vejamos o dicionário de etimologia:

Lone: 1377, aphetic shortening of alone (q.v.) by misdivision of what is properly al(l) one. The Lone Star in ref. to “Texas” is first recorded 1843, from its flag. First record of lonely is from 1607; lonesome from 1647. Loner “one who avoids company” first recorded 1947. Lone wolf in the fig. sense is 1909, Amer.Eng.

Alone: c.1300 contraction of O.E. all ana “all by oneself,” from all “all, wholly” + an “one.” Similar compounds found in Ger. (allein) and Du. (alleen).

Sole: “single,” c.1386, from O.Fr. soul (fem. soule), from L. solus “alone,” of unknown origin, perhaps related to se “oneself,” from PIE reflexive base *swo- (see so). Adv. solely is attested from 1495.

O lone, que passa para o alone, é estar consigo mesmo, estar consigo mesmo completamente, com Um, com sua alma. Se o exemplo é Estrela Solitária (Texas), podemos pensar que uma estrela solitária o é porque brilha por si mesma!, independente que brilhe, e constitua constelações, com outras estrelas.

Ora, é exatamente como nós somos: solitários na multidão. (Ou como gostaríamos de ser)

Ao sozinho, resta somente estado de patologia (àquele que não encontra a si mesmo e, portanto, busca em tudo e em todos, infinitamente, seu outro – como quem busca uma alma gêmea).

[com isso, não quero advogar em nome do solitário ou do sozinho. só penso que vivemos, ou temos essa distinção em nosso ideal; embora que não de modo claro]

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