Ser filósofo; ou, das duas primeiras lições de Filosofia

Ler Montaigne é sempre gratificante. Saímos, após cada ensaio, com a mesma motivação que instigava o autor: pintar a nós mesmos. Na verdade, caberia dizer, esboçar a nós mesmos, para seguirmos com a analogia. Ensaiar-se, esboçar-se, experimentar-se, sinônimos neste contexto onde cabe mais uma honestidade com nosso Eu, como nos colocamos no mundo agora (e, portanto, como, neste instante, interpretamos todo nosso colocar-se), que um pensamento de coerência dura (que visa fugir de algum ressentimento com o que nós fazemos): assumir-se é assumir o que dizemos, dissemos e diremos como bom, mau, certo, errado, justo, injusto – honestidade, neste sentido, é coerência agora.

Imbuído deste motor, lembrava eu das primeiras aulas de Filosofia. Lembrava, seja porque hoje estou formado, seja porque, hoje, estou preparando alguns projetos de pesquisa e, com isso, releio textos com distanciamento e saudosismo.

Fazer Filosofia, cursar Filosofia, em geral, é algo bastante penoso. Às vezes penso que a distinção entre senso comum e pensamento rigoroso é verdadeira de fato. Outras, penso que a dureza do contato com um pensar filosófico é porque ele é sistemático: é arrastar um problema para toda sua vida. Assim, podemos, um dia, acordar pensando sobre a continuidade das coisas, podemos ver uma cena e pensar sobre a justiça ou, mesmo, ouvir uma música e pensar sobre a sensação. Tudo isso em geral e abstratamente. A dureza de viver, só em pensamento, o mundo todo, é dureza de peso: quem pensa sente-se um Atlas, carregando o mundo, não nos ombros, mas às costas.

Pois bem, a esta dureza, nossas primeiras lições foram, por um lado, que ao nos formarmos em Filosofia, não ficamos filósofos. Filósofos foram àqueles que estudamos, que lemos. Pensamos juntos com eles mas não somos filósofos. Diferentes de engenheiros, que são assim porque se formaram em Engenharia, Médicos, Enfermeiros, Biólogos… todos estes, que recebem o certificado da sua Instituição de Ensino; ao contrário, nós, da Filosofia, recebemos o certificado de nossa Instituição, mas não recebemos o título. É algo parecido com ser um Santo: nunca se é Santo; é por uma Instituição, que não é somente terrena, e que é examinada após a morte do sujeito, que se recebe o cargo. Só se é Filósofo depois de morto? Não.

Talvez, então, fosse algo como ser artista? Pois, assim como não se precisa freqüentar a Faculdade de Artes, pode-se, mesmo assim, sê-lo. Ou, pode-se freqüentar a mesma Faculdade e, ainda assim, não sê-lo. Ser artista depende de algo outro… Um gênio, quem sabe? Um talento oculto, reservado para poucos… Mas aí, não seria também como o Santo? Um pouco, eleito por Deus – e só sabemos dessa eleição após a morte do sujeito – que possui um Dom que será (no futuro) reconhecido.

Talvez fosse melhor pensar como pensamos nossos (digo nossos porque nos chamamos de Professores de Filosofia) estudantes. Assim como eles, ao acertarem os exercícios de Matemática não se tornam matemáticos, nós, ao sermos aprovados em um curso de Filosofia, não nos tornamos filósofos. Interessante pensamento que ainda assim, remete para algo outro a institucionalização do pensamento.

A isso, poderíamos pensar assim: se Filosofia lida como pensamento, somos, então, professores de pensamento, sem sermos pensadores. Somos reprodutores do que os pensadores pensaram e, portanto, um algum outro – um dia quem sabe – reconheça que também pensamos. O novo, só é instituído por mim quando reconhecido por um outro: ser filósofo seria isso. Sou filósofo quando a Filosofia (seja lá o que seja isso) me reconheça em suas páginas.

Se, por um lado, isso traz uma beleza (assim como o mito do Gênio, para as artes), esconde toda Institucionalização, real, que a Filosofia possui. Como toda área, ela produz, publica, possui critérios estritos para o que lá é pensado… Critérios tão bem elaborados que consegue institucionalizar o pensamento, naqueles que ela mesma forma de que, mesmo formados, ainda assim, não fazem parte dela. São apêndices: professores de Filosofia, reprodutores dos Filósofos. (Além de esconder a falsa idéia de que um professor é um reprodutor de pensamento. Mas isso pode ser pensado outra hora – e talvez, numa Faculdade de Educação, para preservarmos as purezas das áreas e nos descomprometermos com problemas que não consideramos relevantes).

Pois bem: estou formado e não sou filósofo. Sou professor de Filosofia. Essa é minha primeira lição. Ensinada desde os primeiros dias, quando, a uns poucos, anunciava-se, junto de sua empolgação e excitação que todo início carrega consigo, anunciava-se o rigor, a castração, o peso da tradição: a dureza da Filosofia. (Um mito é bom porque também nos permite fazer esse recurso de pensamento – A Filosofia passa a ser uma instituição, tão abstrata, composta por sabe-se lá Deus quem, mas, ainda assim, real porque nos causa medo e admiração, desejo e repulsa.)

A segunda lição, mais tranqüila, quem sabe, é a de que A Filosofia não é uma Ciência. E, não é Ciência porque não possui objeto. Talvez muitos de nós não tenhamos tido tempo para pensar isso. Talvez até porque estivéssemos desesperados em passar e, assim, não mostrar que se aprendeu as primeiras lições de um curso já seria indício de (i) perecermos como Professores de Filosofia e, (ii) rodarmos nas primeiras disciplinas do curso. Então, talvez, naquele momento, tivesse sido melhor decorar, escrever e reescrever, gravar e ouvir estas palavras, reproduzi-las nas provas e, também, dizer aos outros que não somos cientistas e, frente aos olhares interrogativos e ouvidos curiosos, cuspir tudo que este professor disse (que foi ouvido, copiado e escrito muitas vezes… decorado, quem sabe?)com a certeza de que não encontraríamos sujeito que não estivesse convencido. E se, esse existisse, assim como este professor fez (e nós bem vimos, e aprendemos para não fazer igual), e se existisse e ousasse perguntar ou questionar, vomitaríamos citações, desqualificaríamos o sujeito (ele não pensa logicamente… seu argumento é inválido… sua premissa é inconsistente), ganharíamos a platéia e sairíamos com um sorrisinho malicioso nos lábios: somos amigos da verdade e inimigos da falsidade e do erro. Somos um pouco filósofos (embora, talvez, a mesa não saiba que seremos, talvez para sempre, tão somente professores de filosofia. Algumas vezes estamos livres do embaraço).

Pois bem, isso tudo e a Filosofia não tem objeto. Que seja. Que não tenha mesmo (o que, ainda, poderia ser dubitável). Que aceitemos isso.

Agora, o difícil de aceitar é: porque uma ciência DEVE ter um objeto? Ou, que critério é esse, de onde ele sai, para desqualificar um campo de conhecimento? Afinal: existem filósofos, existem Faculdades de Filosofia, existem Professores de Filosofia, existem pesquisas em Filosofia, livros de Filosofia, Revistas de Filosofia, Charlatães da Filosofia… tudo isso, um grande sistema que, como todo sistema, gera dinheiro (não tanto quanto os banqueiros, empresários, administradores, advogados, médicos, corruptos… mas que gera, gera). Tem disputa, tem critério, tem sacanagem, tem paternalismo, tem desemprego, tem bibliografia, tem faculdade, tem rubrica no CNpQ… Tem tudo que qualquer campo científico tem.

Mas não é Ciência. E isso, porque não tem objeto.

Agora, formado, me dedico a pensar isso. Talvez porque tenha bastante tempo (afinal, ser professor de Filosofia, formado, é, no mais das vezes, também, ser desempregado). Ou porque seja um ressentido (afinal, A Filosofia não fez de mim filósofo – e, talvez, nunca faça). Ou então, porque não acredite muito nas nossas duas primeiras lições.
Seja o que seja, prefiro os Ensaios de Montaigne que, a meu ver, são mais próximos da vida vivida que a dureza filosófica com seus critérios meio divinos, meio míticos (místicos?) que toda área acadêmica (e científica) têm.

8 Comments

Filed under Essay, Montaigne, Philosophy

8 responses to “Ser filósofo; ou, das duas primeiras lições de Filosofia

  1. Mariana Branco

    Olá, a você que escreveu esse texto, meus cumprimentos, a vontade de saber por que você não assinou o que escreveu, e a curiosidade de saber qual dos Ensaios de Montaigne lhe interessa assim.
    Estou escrevendo sobre “pesquisa participante”, esse assunto absurdo para algumas pessoas e achei que o começo do seu artigo pode referendar minhas suposições sobre a vantagem de começar por nossas reflexões sobre nossa própria existência.
    um abraço
    Mariana

  2. poars1982

    Mariana, eu não assinei porque imaginava estar subentendido que ele é de minha autoria… Com este comentário, acho que isto ficará claro.
    Sobre os Ensaios, eu tenho predileção por eles em geral. Particularmente escrevi, junto com outro colega, um artigo em que investigávamos o ‘Do Pedantismo’. Além disto, também gosto muito do ‘Do arrependimento’ e ‘Dos coches’.
    Lhe envio um email para trocarmos mais informações.
    um abraço,
    leonardo.

  3. Oi Leonardo! Meu nome é Cassiano, e sou um baita fã do blog. Eu quero apenas te avisar que tomei a liberdade de colocá-lo na lista de links do blog da linha de pesquisa da qual faço parte, na UFRGS, (www.santicristo09.blogspot.com). E gostaria de saber se poderíamos exibir aqui o link do nosso blog. Seria uma grande honra!
    Grande Abraço
    Cassiano Stahl

  4. ema8

    um bom texto mesmo,
    mas esqueceu de uma definição
    a de que os filósofos (ou professores de filosofia formados) são donos de citações
    hehe

    abs

  5. demais de bom, virei sempre.

  6. pet

    Esse turbilhao de informacoes que a web nos proporciona sempre me faz selecionar cada linha do que lerei. Hoje, procurando um ebook (breve romance de sonho), achei este blog. Na dura verdade, te digo que nunca paro para ler blogs, sao sempre cheios de mesmice egocentrica, ( desculpe, estou meus acentos aqui). Claro, pedir para um ser humano deixar de ser egocentrico é o mesmo que pedir a ele que deixe de ser humano, é impossível. Nao posso dizer que voce nao foi egocentrico e por isso me atentei ao seu texto, mas posso dizer que me impressionei com a sinceridade e a reflexao a cerca do seu Eu em relacao a sua nova “profissao”. Talvez eu até admire a sua capacidade de admitir uma certa frustracao. De fato, eu admiro! E admiro a mim por ter lido todo o texto sem pensar que deveria procurar outra coisa para fazer. Quando vejo alguém escrevendo impressionantemente bem, e com tanta coerencia, sinto uma certa inveja e um certo contentamento. Inveja por que gostaria de escrever assim, e contentamento por perceber que ainda coisa que valem a pena serem lidas e nao sao palavras de um morto. Contente por nao sentir a solidao por estar rodiada por mediocridade. ( Eu posso admitir a minha mediocridade, mas nao posso conviver com a alheia, e tampouco admitir que nao estamos evoluindo, e que só há no passado coisas boas).

    Eu poderia agradecer a voce por publicar seus pensamentos e permitir que outras pessoas reflitam, ou leiam, ou ignorem…Mas nao faz sentido agradecer. Talvez faca sentido um incentivo como: Continue!

    Até breve.

  7. Raylander

    oiiiiiiiiii

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