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Nietzsche e Kundera põe o “mais pesado dos pesos”

 

RESUMO

A doutrina do eterno retorno, apresentada por Nietzsche, respectivamente, nas obras Gaia Ciência, Assim Falou Zaratustra e Além do Bem e do Mal parece conter tanto um sentido ético quanto um sentido cosmológico. Assim, apostar na suposição de que o mundo seja repetição infinita de variações finitas, o filósofo também estaria apostando na idéia da circularidade da vida em oposição à linearidade desta: viver o eterno retorno implica afirmar a vida aceitando o destino, sendo assim, rompendo com a idéia de uma possível transcendência para além do aqui e agora do mundo. Por outro lado, esta mesma idéia é apropriada porém, em um contexto bastante diferente, a saber, o contexto estético da obra de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser. A apropriação de Kundera visa, por sua vez, afirmar a singularidade de cada ação, uma vez que estas são impulsionadas por sentimentos e impulsos e não por imperativos éticos transcendentes. O presente trabalho pretende, então, realizar uma leitura comparativa entre os dois autores, buscando, assim, iluminar tanto a obra filosófica quanto a obra literária.

 

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THE UNBEARABLE LIGHTNESS OF BEING

img_caminhos.jpgComments by Bob Corbett – October 2001

A touching and sad novel, at once a compelling love story, philosophical text, and dialogue with Frederich Nietzsche — The Unbearable Lightness of Being is all of these and more, perhaps most importantly a manifesto of embracing nihilism.

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A insustentável leveza do ser – Kundera

Capítulo 17

KunderaDesde o primeiro dia de ocupação que os aviões russos se cruzavam durante toda a noite no céu de Praga. Tomas desabituara-se do barulho e não conseguia adormecer.

Virava-se na cama, ao lado de Tereza já a dormir, pensando no que ela lhe dissera há vários anos no meio de uma conversa banal. Estavam a falar de Z., um amigo de Tomas, e Tereza declarara: ”Se não te tivesse encontrado, tinha me apaixonado por ele.” Continue reading

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Kundera e Nietzsche põe “o mais pesado dos pesos”

Nietzsche - Munch “E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e dissesse: ‘Esta vida, assim como tua vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pesnamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’ – Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi mais divino!’

Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?’ pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” (Nietzsche, Gaia Ciência, 341)

O “das schwerste Gewicht”, o mais pesado dos pesos, carrega consigo uma gama de questões. A teoria do eterno retorno seria um meio de purificação, prova de coragem, exercício de instrospecção, guia de conduta ou imperativo existencial? Ou mesmo, aproximar-se-ia da primeira formulação kantiana do imperativo categórico (‘age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal’)? Continue reading

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Circularidade e progresso: Nietzsche e Kundera contra a história.

 Van Gogh - Caminho com Choupos

Milan Kundera, em seu A insustentável leveza do ser (The Unbearable Lightness of Being -Nesnesitelná lehkost bytí; 1984) inicia comentando a idéia do Eterno Retorno em Nietzsche: ‘pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente’.

Essa estranha, ou mesmo insensata idéia, retoma o que tem de mítico em nossas vidas, uma vez que nega a história e a idéia de progresso. Mas isto não é tudo! Ela, é, acima de tudo, uma teoria moral que faz com que nossas ações passem para o mundo da infinitude e circularidade, não da finitude e progressão. Saídos deste ‘mundo fundado essencialmente sobre a existência do retorno, pois nesse mundo tuto é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente perdido’. Por isso que o inferno, na mitologia cristã, ocupa este papel.

O inferno é a repetição, repetição cruel que não se perde na história, que não é esquecida, que não depende de memória e que, como é erro ad infinitum,  não dá espaço para o perdão.

Aqui, fica óbvia pelo menos uma diferença, distinção entre o modo de vida dos povos ditos selvagens e o nosso: o perdão se constitui na história, no esquecimento da existência de um mal; por outro lado, o perdão não existe, porque o mal assola a todos na presença de um deus que personifica e não esquece.

De um lado, o mal é ausência de bem, de outro, o mal é tão presente quanto o bem.

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A insustentável leveza do ser

A grande marcha, 6

Por trás de todas as crenças européias, sejam religiosas ou políticas, está o primeiro capítulo do Gênese, a ensinar que o mundo foi criado como devia ser, que o ser humano é bom e que, portanto, deve procriar. Chamemos essa crença fundamental de acordo categórico com o ser.
Se, ainda recentemente, a palavra merda era substituída nos livros por reticências, isso não se devia a razões morais. Afinal de ocntas, não se pode considerar que a merda seja imoral! A objeção à merda é de ordem metafísica. Defecar é dar uma prova cotidiana do caráter inaceitável da Criação. Das duas uma: ou a merda é aceitável (e, nesse caso, não precisamos nos trancar no banheiro), ou Deus nos criou de maneira inadmissível.
Segue-se que o acordo categórico com o ser tem por ideal um mundo no qual a merda é negada e no qual cada um de nós se comporta como se ela não existisse. Esse ideal estético chama-se Kitsch.
(…)
em essência, o kitsch é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal quanto no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.
(KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser)

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