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Friedrich Nietzsche: justiça e ação – Eduardo Rezende Melo

A dissertação de mestrado “Justiça e ação no pensamento nietzscheano” foi defendida na PUC/SP, em dezembro de 2002, sob orientação do professor Peter Pal Pélbart. A banca foi composta pelos professores Ernani Chaves e Maria Cristina Franco Ferraz. O objetivo da tese é acompanhar nas obras de Nietzsche a sua crítica à justiça, tal como entendida pela tradição, e a sua tentativa de transvaloração deste valor, em íntima ligação com a ação. Leia a seguir a íntegra do capítulo “Genealogias da Cultura e da Justiça”, referente à “Genealogia da Moral”.

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Álibis

conceito-dominacao-negocio-batida-cavaleiro-nocao-gs096015.jpgHegel, nas passagens da Fenomenologia do Espírito (FE), na parte conhecida como A Dialética do Senhor e do Escravo, apresenta a tentativa fracassada de uma consciência (um Self), após sua formação na egoidade, na relação puramente sujeito – objeto, de buscar a liberdade. Essa liberdade, como bem nos frisa o filósofo alemão, não pode existir individualmente (e nisso concorda com Aristóteles, na Política: um homem que não vive em sociedade é um imbecil ou um deus): a vida humana e, por conseguinte, todo conceito, só existe intersubjetivamente.

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Mundo e espetáculo

ensaio cubista - daruich hilal

Todo ser moral é um ser racional, e é irracional contemplar passivamente uma injustiça que esteja ocorrendo e possa ser evitada. Em tais casos é preciso intervir, e a única coisa que impede um ser racional de intervir ante uma violência é a necessidade — não a vontade — de proteger-se do mais forte (como nos diz Rousseau no Contrato Social 1.3). Mas a força não gera direito, e, tão logo pode, o ser racional faz o que deve, intervindo ante as injustiças.

Há circunstâncias nas quais é legítimo contemplar sem intervir. Nessas situações, típicas do teatro, as falas são colocadas entre aspas, o mundo é colocado entre parêntesis.

Ando pela rua, e logo adiante é encenada uma peça de teatro de rua. Sei que é uma peça pela entonação da voz dos atores, pelos seus movimentos corporais, pela sua maquiagem, pelos elementos cênicos, pelas armas cenográficas que empunham. Tudo isso são marcadores claros que me permitem averiguar que o ator que diz que está morrendo não precisa de ajuda, pois está apenas citando as falas do seu personagem. Esses indicadores me garantem que sou platéia de uma peça teatral, não testemunha de atos de injustiça.

Sem tais marcadores, sem algum meio de averiguar que se trata de uma peça, seria irracional comportar-se de maneira distanciada, contemplando esteticamente os atos de violência que por ventura se dessem na peça. Eis porque é típico do teatro, e da arte em geral, marcar claramente as “aspas” ou “parêntesis” que permitem ao ser racional relaxar e contemplar, ao invés de entender e agir.

Não só a arte demarca cuidadosamente o domínio da contemplação, distinto do domínio da ação. Descartes, na “Primeira Meditação” e em diversos outros lugares da sua obra, deixa muito claro que o domínio da dúvida radical não é o domínio da vida, pois nesse domínio cabe agir, não distanciar-se. Nada mais distante de Descartes do que a idéia que a vida é um sonho.

Fora dessas circunstâncias onde se deixa muito claro que a contemplação é legítima, a passividade ante a visão de uma injustiça é racional e moralmente inaceitável. Se você ouve gritos, vai à janela e presencia um estupro, na ausência de coação física não há nada que justifique uma atitude contemplativa. Seria diferente se você estivesse no cinema e o estupro ocorresse na tela, e a diferença está em que a vida não é um espetáculo.

Da mesma maneira, se você compreende que a estrutura da sua sociedade é injusta, e você tem os meios de modificar essa estrutura, é irracional que você não o faça. Notar uma injustiça social e tomar uma atitude distanciada ante a mesma é irracional, pois a injustiça é um estado do mundo, não um ato de uma peça teatral. Ante o mundo um ser racional age tendo o bem, a verdade e a justiça como objetos formais da sua consideração, e ele só poderia deixar de agir dessa maneira caso estivesse ante um mero espetáculo teatral, não ante o mundo.

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Este texto foi inspirado em idéias de Arthur C. Danto em A Transfiguração do Lugar-Comum, e me beneficiei de discussões com Marden Müller.

Texto retirado de crônicas metafísicas Site bem interessante, com uma série de textos de cunho filosófico. Mais sobre o blogueiro na barra ao lado: César Schirmer.

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