Category Archives: Literature

Notas de leitura: sonhando de olhos bem fechados

 Schnitzler, Arthur.   Breve romance de sonho.  São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 121 p.

Sinopse: da Folha de S.Paulo

Tudo vai bem na vida do dr. Fridolin e de sua mulher, Albertine. Ambos são jovens, belos, prósperos e têm uma filhinha adorável. Pode-se dizer que, na Viena dos anos 1920, eles formam uma família burguesa exemplar.

Até que, numa noite, depois de um baile de máscaras e vários goles de champanhe, Albertine decide confessar ao marido uma antiga fantasia erótica. Perturbado pela história secreta de sua mulher, o dr. Fridolin sai no meio da noite para atender a um paciente em estado grave.

A partir desse momento, tudo o que parecia dar sustentação ao mundo das personagens começa a entrar numa espécie de vertigem. Rapidamente o dr. Fridolin se vê enredado numa estranha aventura sexual, em que o desejo e o perigo de morte se auto-alimentam. Ao final da narrativa, o leitor fica com a impressão de que a volta à “realidade de todos os dias” não será mais possível – não para as personagens que a vivenciaram.

Nesta pequena obra-prima de Arthur Schnitzler, as estruturas da vida psíquica e familiar são abaladas e expostas até os alicerces. Baseado nela, o cineasta norte-americano Stanley Kubrick fez, em 1999, seu filme de despedida: De Olhos Bem Fechados, com Tom Cruise e Nicole Kidman nos papéis principais. Continue reading

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Notas de Leitura: A confusão torta

Musil, Robert.   O jovem Törless.  Rio de Janeiro: O Globo, 2003. 157 p.

Sinopse: da Folha de S.Paulo

Na virada do século 19 para o 20, um grupo de jovens cadetes passa pela velha experiência do confinamento: estão todos afastados de casa, longe dos pais, internados em um colégio militar do antigo império Austro-Húngaro. Törless é um desses adolescentes, e sua história se assemelha muito às experiências vividas na juventude por seu criador, Robert Musil.

Acostumado a um ambiente familiar que sempre lhe pareceu claro e equilibrado, Törless agora se vê na contingência de ter que amadurecer por conta própria, entre seus pares. A rígida disciplina do colégio e as relações entre os que vivem ali dentro (alunos, professores, funcionários) logo manifestam seus mecanismos de perversão. Os mais fortes se reúnem para espezinhar os mais frágeis, os sádicos dão as mãos aos masoquistas, e a sexualidade se exercita como se pode, com prostitutas ou entre os próprios alunos.

Enquanto assiste como um espectador – ou ator relutante – à rotina do internato, o protagonista escreve longas cartas à família, na tentativa de lançar pontes entre a vida obscura do colégio e a suposta vida normal do mundo lá fora, o presente “doentio” e o passado “saudável”. Mas aos poucos tudo o que o cerca é contaminado pela atmosfera de ódio e irracionalismo que marca as relações pessoais, os afetos e a memória.

Este romance do jovem Musil prepara rigorosamente, com tintas expressionistas, o cenário de hostilidade e abjeção que caracterizaria a Europa do entre-guerras.
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Quote

“Sempre evitei falar de mim, falar-me.

Quis falar de coisas.

Mas na seleção dessas coisas não haverá um falar de mim?”

João Cabral de Melo Neto

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Gerônimo e Bianca (Eduardo e Mônica versão 7)

Gerônimo cismava pensando em Bianca.
Fazia muito, ou pouco, não importava, tinham se visto e, mais uma vez, as palavras trancavam na garganta. Sempre trancadas, sempre trancando, Gerônimo sabia disso: era um ‘eu te amo’ que queria sair. Continue reading

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Nietzsche e Kundera põe o “mais pesado dos pesos”

 

RESUMO

A doutrina do eterno retorno, apresentada por Nietzsche, respectivamente, nas obras Gaia Ciência, Assim Falou Zaratustra e Além do Bem e do Mal parece conter tanto um sentido ético quanto um sentido cosmológico. Assim, apostar na suposição de que o mundo seja repetição infinita de variações finitas, o filósofo também estaria apostando na idéia da circularidade da vida em oposição à linearidade desta: viver o eterno retorno implica afirmar a vida aceitando o destino, sendo assim, rompendo com a idéia de uma possível transcendência para além do aqui e agora do mundo. Por outro lado, esta mesma idéia é apropriada porém, em um contexto bastante diferente, a saber, o contexto estético da obra de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser. A apropriação de Kundera visa, por sua vez, afirmar a singularidade de cada ação, uma vez que estas são impulsionadas por sentimentos e impulsos e não por imperativos éticos transcendentes. O presente trabalho pretende, então, realizar uma leitura comparativa entre os dois autores, buscando, assim, iluminar tanto a obra filosófica quanto a obra literária.

 

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Leon: entre desespero e harmonia

Leon não sabe o que fazer.

Busca em imagens ínfimas, em pensamentos o que o conectaria com a realidade.

Estará vivendo um sonho? Estaria vivendo um sonho?

O constante exercício de negação o elevou ao monte de Zaratustra: sentia-se sozinho, não solitário como eremitas que odeiam os homens, mas solitário no meio da multidão despedaçada: sabia que nada poderia fazê-lo sentir-se diferente, embora ainda assim, acreditasse que algo poderia fazê-lo sentir diferente.

Ah!, como é difícil aceitar a vida. Ah, como é difícil negar a negação da vida: quem procede assim, na dupla negação, ainda não afirma.

Afirmar a vida é, antes de tudo, saber que cada instante é sempre novo e, também, sempre o mesmo:

aí, no instante, entre o passado e o futuro, é que se encontra o segredo abismal

O eterno retorno do mesmo.

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O ‘pensamento selvagem’ dos poetas: Hölderlin e Goethe na perspectiva de Lévi-Strauss

Texto de Kathrin Rosenfield, profa. Dra. da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que aborda os três autores, visando as consonâncias e dissonâncias de logos e mythos.

Download do texto: pnsmnto-slvagem

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