Category Archives: Reason

CRÍTICA DA MORAL COMO POLÍTICA EM NIETZSCHE – Oswaldo Giacóia Júnior

Já se consagrou como corrente de interpretação largamente difundida aquela que distingue na filosofia de Nietzsche uma intenção e significado fundamentalmente políticos. Nesse sentido caminha, por exemplo, a recepção do início do século (posteriormente conhecida como ‘culto a Nietzsche’ – em especial ao longo dos anos 20 e 30 -), que o considerava defensor de um ultra-libertário amoralismo esteticista, socialmente irresponsável, desprezando vínculos de solidariedade para com os direitos fundamentais da pessoa; também aquela que o interpreta como partidário de um maquiavelismo despótico, retrógrado, saudosista das aristocracias grega e renascentista, ou como precursor dos sistemas ideológicos totalitários e mesmo kriptofacista; mas não faltaram também exegeses em sentido inverso, que acentuavam a rebeldia emancipatória presente na filosofia política nietzscheana, seu curioso parentesco teórico com a esquerda hegeliana de M. Stirner ou até mesmo com o anarquismo. De toda maneira, é no espectro variado de interpretações dessa espécie que se cristalizou um entendimento político da filosofia nietzscheana. Assim é que, durante a trajetória montante do nacional-socialismo e no período de sua consolidação, A. Bäumler e A. Rosenberg, por exemplo, vêm em Nietzsche uma justificação filosófica de seu regime totalitário; e G. Lukács, nos anos cinqüenta, em especial em seu famoso livro A Destruição da razão, julga poder situar o essencial do pensamento de Nietzsche em sua visceral hostilidade para com o socialismo, apostrofando-o de fundador do irracionalismo característico do período imperialista do capitalismo ocidental

Acesse aqui o texto na íntegra.

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AS DUAS MUTAÇÕES DE NIETZSCHE | Oswaldo Giacoia Júnior

A primeira mutação a que Nietzsche se refere diz respeito ao predomínio da racionalidade científica
a partir do pensamento socrático, quando uma cultura de perfil predominantemente artístico
— a cultura grega da época pré-platônica — cede terreno a uma cultura alexandrina, baseada no
domínio da racionalidade teórica. A conseqüência extrema da sabedoria socrática irá conduzir, segundo Nietzsche, a uma nova mutação: a transvaloração de todos os valores, ou seja, a auto-supressão da moral socrático-platônico-cristã, ensejando o resgate da inocência do vir-a-ser, para além de toda culpa e expiação.

OSWALDO GIACOIA JUNIOR é professor de Filosofia.
Assista o vídeo clicando aqui.

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III Seminário sobre filosofia e educação: Racionalidade, diversidade e formação pedagógica

24 a 26 de Setembro em passo fundo
Os artigos deverão ser enviados via e-mail para o seguinte endereço:  seminariofil.edu@upf.br Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email até o dia 21 de julho, às 24 horas, impreterivelmente. A aceitação do artigo fica condicionada à inscrição no evento.

Os resultados dos textos aprovados serão divulgados no dia 25 de agosto de 2008 na página do seminário, http://www.upf.br/seminariofil/index.php com os respectivos horários para a apresentação. Os textos aprovados serão publicados nos anais do evento.

Site do evento: clique aqui
Objetivos
– Debater, a partir de diferentes enfoques teóricos, os desafios da formação pedagógica no contexto contemporâneo de um mundo cada vez mais complexo e plural.
– Propiciar aos estudantes de Graduação e Pós-graduação e a comunidade em geral a oportunidade de confrontar suas concepções com interpretações especializadas sobre diferentes problemas relacionados com a temática da diversidade na formação pedagógica.
– Intercambiar experiências com pesquisadores de renome internacional de outras universidades
– Fortalecer ações dos cursos de Graduação e Pós-Graduação da UPF envolvidos e o Grupo de Pesquisa Interinstitucional Racionalidade e Formação (CNPq).

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Cerveja, masculinidade e disputa social

Recentemente, a cerveja portuguesa TAGUS cogitou o lançamento de uma campanha intitulada ‘Orgulho hétero’:

Cartaz Orgulho Hétero

“A TAGUS, cerveja puro malte, criou uma nova campanha publicitária que tem como conceito o orgulho heterosexual. (…)
Esta supreendente campanha também originou a criação de um novo site Tagus: http://www.orgulhohetero.com, onde a marca pretende desenvolver este conceito e promover o convívio entre jovens do sexo oposto.

O site do orgulho da TAGUS vais ser a porta de entrada num mundo hetero. Aqui o consumidor poderá encontrar uma (ou várias) possível caras-metade e flirtar com ela. A ideia deste site é construir uma pequena comunidade virtual o HI Hetero constituindo uma forma simples de conhecer pessoas do sexo oposto. Para além desta area mais lúdica, neste site os interrnautas podem ficar a par de todas as novidades da marca TAGUS, descobrir novas verdades dedicadas ao Orgulho Hetero e comprar merchandising Hetero.”

O protagonista da minha descoberta foi o colectivo feminista que, por sua vez, performatizou uma contra-campanha da qual eu só coloco uma imagem para dar uma idéia:

Orgulho Macho

A resposta me faz lembrar o livro de Norbert Elias escrito com John Scotson, Os Estabelecidos e os Outsiders (The Estabilished and the Outsiders: A sociological Enquiry into Community Problems, 1965). Afinal, qual é a justificativa  para que se critique esta ação heterossexual?

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Mundo e espetáculo

ensaio cubista - daruich hilal

Todo ser moral é um ser racional, e é irracional contemplar passivamente uma injustiça que esteja ocorrendo e possa ser evitada. Em tais casos é preciso intervir, e a única coisa que impede um ser racional de intervir ante uma violência é a necessidade — não a vontade — de proteger-se do mais forte (como nos diz Rousseau no Contrato Social 1.3). Mas a força não gera direito, e, tão logo pode, o ser racional faz o que deve, intervindo ante as injustiças.

Há circunstâncias nas quais é legítimo contemplar sem intervir. Nessas situações, típicas do teatro, as falas são colocadas entre aspas, o mundo é colocado entre parêntesis.

Ando pela rua, e logo adiante é encenada uma peça de teatro de rua. Sei que é uma peça pela entonação da voz dos atores, pelos seus movimentos corporais, pela sua maquiagem, pelos elementos cênicos, pelas armas cenográficas que empunham. Tudo isso são marcadores claros que me permitem averiguar que o ator que diz que está morrendo não precisa de ajuda, pois está apenas citando as falas do seu personagem. Esses indicadores me garantem que sou platéia de uma peça teatral, não testemunha de atos de injustiça.

Sem tais marcadores, sem algum meio de averiguar que se trata de uma peça, seria irracional comportar-se de maneira distanciada, contemplando esteticamente os atos de violência que por ventura se dessem na peça. Eis porque é típico do teatro, e da arte em geral, marcar claramente as “aspas” ou “parêntesis” que permitem ao ser racional relaxar e contemplar, ao invés de entender e agir.

Não só a arte demarca cuidadosamente o domínio da contemplação, distinto do domínio da ação. Descartes, na “Primeira Meditação” e em diversos outros lugares da sua obra, deixa muito claro que o domínio da dúvida radical não é o domínio da vida, pois nesse domínio cabe agir, não distanciar-se. Nada mais distante de Descartes do que a idéia que a vida é um sonho.

Fora dessas circunstâncias onde se deixa muito claro que a contemplação é legítima, a passividade ante a visão de uma injustiça é racional e moralmente inaceitável. Se você ouve gritos, vai à janela e presencia um estupro, na ausência de coação física não há nada que justifique uma atitude contemplativa. Seria diferente se você estivesse no cinema e o estupro ocorresse na tela, e a diferença está em que a vida não é um espetáculo.

Da mesma maneira, se você compreende que a estrutura da sua sociedade é injusta, e você tem os meios de modificar essa estrutura, é irracional que você não o faça. Notar uma injustiça social e tomar uma atitude distanciada ante a mesma é irracional, pois a injustiça é um estado do mundo, não um ato de uma peça teatral. Ante o mundo um ser racional age tendo o bem, a verdade e a justiça como objetos formais da sua consideração, e ele só poderia deixar de agir dessa maneira caso estivesse ante um mero espetáculo teatral, não ante o mundo.

* * *

Este texto foi inspirado em idéias de Arthur C. Danto em A Transfiguração do Lugar-Comum, e me beneficiei de discussões com Marden Müller.

Texto retirado de crônicas metafísicas Site bem interessante, com uma série de textos de cunho filosófico. Mais sobre o blogueiro na barra ao lado: César Schirmer.

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Circularidade e progresso: Nietzsche e Kundera contra a história.

 Van Gogh - Caminho com Choupos

Milan Kundera, em seu A insustentável leveza do ser (The Unbearable Lightness of Being -Nesnesitelná lehkost bytí; 1984) inicia comentando a idéia do Eterno Retorno em Nietzsche: ‘pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente’.

Essa estranha, ou mesmo insensata idéia, retoma o que tem de mítico em nossas vidas, uma vez que nega a história e a idéia de progresso. Mas isto não é tudo! Ela, é, acima de tudo, uma teoria moral que faz com que nossas ações passem para o mundo da infinitude e circularidade, não da finitude e progressão. Saídos deste ‘mundo fundado essencialmente sobre a existência do retorno, pois nesse mundo tuto é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente perdido’. Por isso que o inferno, na mitologia cristã, ocupa este papel.

O inferno é a repetição, repetição cruel que não se perde na história, que não é esquecida, que não depende de memória e que, como é erro ad infinitum,  não dá espaço para o perdão.

Aqui, fica óbvia pelo menos uma diferença, distinção entre o modo de vida dos povos ditos selvagens e o nosso: o perdão se constitui na história, no esquecimento da existência de um mal; por outro lado, o perdão não existe, porque o mal assola a todos na presença de um deus que personifica e não esquece.

De um lado, o mal é ausência de bem, de outro, o mal é tão presente quanto o bem.

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Ismael; III, 3

“Essa história (continuou Ismael) aconteceu há meio bilhão de anos — uma época inconcebivelmente distante, quando este planeta teria sido totalmente irreconhecível para você. Nada se mexia sobre a terra, a não ser o vento e a poeira. Nenhuma folha balançava ao vento, nenhum grilo saltava, nenhum pássaro planava no céu. Tais seres ainda esperariam dezenas de milhões de anos para nascer. Até mesmo os mares eram sinistramente imóveis e silenciosos, pois os vertebrados também esperariam milhões de anos para nascer.

Mas é claro que havia um antropólogo de plantão. Que seria do mundo sem os antropólogos? Mas esse antropólogo estava muito deprimido e desiludido, pois havia percorrido todo o planeta procurando alguém para entrevistar e as fitas que carregava na mochila continuavam vazias como o céu. Mas um dia enquanto andava desanimado à beira do oceano, pensou ter visto uma criatura viva nas águas rasas próximas à margem. Não era lá grande coisa, apenas uma espécie de bolha, uma água-viva. Mas, como era a única perspectiva que encontrara em todas as suas viagens, avançou pela água rasa até onde a criatura balançava ao sabor das ondas.

Trocaram saudações cordiais e logo já eram bons amigos. O antropólogo explicou como pôde que estudava estilos de vida e costumes, solicitou tais informações de seu novo amigo e foi prontamente atendido.

— E agora — concluiu o antropólogo — gostaria de gravar, em suas próprias palavras, algumas histórias que contam entre vocês.
— Histórias? — estranhou a bolha.
— Sim, como o mito da criação, se é que o têm.
— O que é o mito da criação?
— Ah, você sabe — respondeu o antropólogo. — As lendas fantásticas que contam a seus filhos sobre a origem do mundo.
Ao ouvir isso, a criatura se empertigou com indignação — ou pelo menos do modo que uma bolha inchada consegue fazê-lo — e respondeu que seu povo não tinha lenda fantástica nenhuma.
— Quer dizer que não explicam a criação?
— Certamente que explicamos a criação — declarou a bolha. — Mas seguramente não é um mito.
— Não, com certeza não — concordou o antropólogo, finalmente se lembrando de seu treinamento. — Ficaria imensamente grato em ouvir essa explicação.
— Muito bem — admitiu a criatura. — Mas quero que entenda que, como você, somos um povo estritamente racional e não aceitamos nada que não se baseie em observação, lógica e método científico.
— Claro, claro — tornou a concordar o antropólogo.
A criatura enfim começou seu relato.
— O universo surgiu há muitos e muitos anos, talvez há dez ou quinze bilhões de anos. Nosso sistema solar (esse astro, este planeta e todos os outros) veio a existir há cerca de dois ou três bilhões de anos. Durante muito tempo, não houve nenhuma forma de vida aqui. Mas então, depois de um bilhão de anos, surgiu a vida.
— Perdão — interrompeu o antropólogo. — Disse que a vida surgiu. Onde isso aconteceu, segundo seu mito… quero dizer, segundo sua explicação científica? Aturdida com a pergunta, a criatura empalideceu.
— Quer dizer, em que local especifico?
— Não, quero saber se aconteceu na terra ou no mar.
— Terra? — estranhou a bolha. — O que é isso?
— Você sabe — disse o antropólogo, acenando na direção da margem. — A extensão de terra e pedras que começa ali.
A criatura ficou mais pálida ainda e retrucou:
— Não faço idéia de que tolice está falando, A terra e as rochas que estão ali são apenas a borda da imensa bacia que contém o oceano.
— Sim, entendo o que está dizendo — disse o antropólogo. — Perfeitamente. Continue.
— Muito bem. Durante milhões de séculos, os únicos seres que existiam no mundo eram microorganismos flutuando ao léu num caldo químico. Mas, aos poucos, formas mais complexas apareceram: criaturas unicelulares, fungos, algas, pólipos e assim por diante. Mas, finalmente… — disse a criatura, corando de orgulho ao chegar ao ápice da narrativa, — Mas, finalmente, a água-viva apareceu.”

(QUINN, Daniel)

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